Publicado por: Lucila Brito | 03/04/2010

Primeira Folha

Esta é Natal/RN. Ao fundo, o Rio Potengi.

Este blog surge da união entre duas paixões e uma necessidade.

Das paixões. Por palavras e flores. Desde menina. A tal ponto de nove entre dez redações feitas no tempo de escola ser de variações sobre o tema… Muito constantemente, sobre o título “A Natureza”. Perceba a sofisticação estilística.

Da necessidade. Minha formação é essencialmente ligada ao conhecimento de coisas naturais. Em outras palavras, sou bióloga. Mas, como muitas outras profissões, no exercício diário, acaba-se por destinar mais tempo ao serviço de papelada, mesmo. Então, para evitar que a monotonia comprometa minha paixão legítima pela profissão (“A Natureza” sempre em mente), procurei uma coisa que me fizesse estar sempre em contato com as coisas naturais e que me fizesse pensar ser um trabalho, também.

Então, cá estou eu iniciando este projeto chamado de “Árvores de Natal”. Percebeu meu tino publicitário? Ao menos em uma época do ano este blog poderá ter a visitação consideravelmente elevada… Mesmo que seja por desavisados, em busca de inspiração para decorações natalinas. Quem sabe eles não simpatizam e acabam ficando. Assim me poupo do embaraço extremo, para uma pessoa reservada, que seria divulgar este espaço. Acho que irá funcionar.

E por que árvores? Planta é a forma primária de minha paixão pela Biologia. O interesse pelo que era microscópico só veio depois, já na faculdade. No princípio, digo, no início do curso, era o mangue. Depois veio a Fisiologia e a produção vegetal. Agora, ainda bióloga, estou meio longe dos vegetais, especificamente. Há pouco tempo, percebi que as árvores estavam meio esquecidas em uma prateleira empoeirada da minha mente. Tive, em dada ocasião, dificuldade em identificar certa árvore corriqueira, dessas que tem as dúzias, nas calçadas de minha cidade.

Minha cidade é Natal, capital do Rio Grande do Norte. Você pode ter muitas informações sócio-econômicas dela aqui. Aqui, irei lhe informar apenas que o clima predominante é o equatorial seco. Em termos gerais, isso quer dizer que temos duas estações bem definidas: o verão (ou estação seca) e o inverno (estação chuvosa) e uma temperatura média de 28°C. Mas, a localização privilegiada de minha cidade acrescenta mais uma variável extremamente bem-vinda: a brisa. Sopra constantemente do mar. Isso nos dá a seguinte condição de vida cotidiana: clima quente e fresco. Ou nos dava. Cenas dos próximos capítulos.

Não esqueçamos o sol. Natal está muito próxima a Linha do Equador. Aquela que divide o mundo em duas partes: os hemisférios norte e sul. Isso faz com que os raios solares incidam mais diretamente sobre a nossa cidade. Para se ter uma idéia, em Natal, durante caso todo o ano, amanhece às cinco horas e anoitece as dezessete. Doze horas diárias de sol. Na sua cidade, que horas amanhece? Depois conversamos sobre isso. Mas, como eu ia falando, é muito sol o ano todo. E isso influencia diretamente o clima característico de Natal. E, nos últimos anos, a incidência de radiação solar, por demais insistente, tem castigado bastante, ao menos a quem não está aqui a passeio. Outras cenas.

Então essa é Natal. E as plantas? E as árvores? O clima e a insolação, moldados pela localização de Natal, favorecem ao aparecimento de um bioma tropical característico da América do Sul: a Mata Atlântica. Ao longo da costa atlântica, a vegetação que forma esse bioma varia bastante. Aqui, em Natal, ela se apresenta, principalmente, composta de três ecossistemas: floresta tropical subcaducifólia, restinga e manguezal. Muitos termos técnicos neste parágrafo, não? Por isso, pesquise!

A floresta tropical subcaducifólia é bem representada por um dos maiores parques urbanos do Brasil, o Parque das Dunas. É esse aí do cabeçalho do blog, visto do Centro de Convenções de Natal. Lá, podem-se encontrar representantes arbóreos desse ecossistema tropical, mas também da caatinga, uma savana brasileira. Como o próprio nome sugere, a ação dos ventos leva ao relevo que caracteriza não só a capital, mas grande parte do litoral do RN: as dunas.

A restinga, na minha cidade, é predominante arbustiva. O que quer dizer que árvores, em Natal, são pouco frequentes nesse ecossistema. Talvez, há alguns anos, fosse mais comum encontrá-las em restingas.

O manguezal, ecossistema de grande impacto visual, pode ser identificado às margens do principal rio que corta a cidade, o Rio Potengi. A este, a cidade se ocupou de dar a função de, por assim dizer, divisor social. Tanto que, mesmo com exuberância natural semelhante nos dois lados, em matéria de áreas verdes planejadas, como praças, o desequilíbrio entre os dois lados é gritante.

E, aqui, voltamos ao que originou este blog: a arborização urbana. A beleza natural da minha cidade não encontra integração e reflexo no espaço urbano. Embora haja raríssimas e honrosas exceções, como a praça ao lado do corpo de bombeiros, as áreas verdes públicas da cidade falham em reproduzir o encanto natural que atrai tantos visitantes.

O Corpo de Bombeiros e sua praça na esquina entre as Avs. Alexandrino de Alencar e Prudente de Morais.

Na verdade, não sei se sequer houve preocupação em fazê-lo. Aqui, não discuto o projeto, bem sucedido, das duas principais áreas verdes públicas da cidade, que o Bosque dos Namorados e a Cidade da Criança. Embora esse último se encontre um pouco abandonado atualmente. Acredito estar em reforma… Voltando, falo dos espaços de fácil acesso, que possam trazer qualidade de vida e conforto térmico sem que, para isso, haja necessidade de um grande deslocamento. Temos canteiros e calçadas pouco arborizados. Se arborizados, pouco planejados. Temos praças sem árvores e, quando existem, sem manejo adequado.

Essas condições de arborização urbana em Natal são preocupantes, principalmente, quando lembramos que a cidade já esteve entre as mais arborizadas do país. Talvez, por isso encontrei tantos planos de cuidar da arborização de Natal quando comecei minha criteriosa pesquisa (leia-se, digitar “arborização urbana em Natal” no Google) para iniciar este blog. Louváveis. Estão aqui, aqui e aqui, para quem quiser conhecê-los, também.

A mim, a motivação vem das paixões e da necessidade que citei no início do post. Posso adicionar também a vontade de que eu, assim como outros moradores de Natal, possa contar com a sombra providencial de uma árvore ao caminhar pelas ruas, durante outro verão escaldante. Metade disso, em praças e parques, legalmente, é nosso direto. A outra metade, em vias públicas e quintais, legalmente, não são nossos direito. Mas, sabemos do bem que fazem.

Calçadão da Av. Roberto Freire. Atrás da cerca, o Parque das Dunas.

Embora a beleza natural seja um exemplo a ser seguido, não acredito que as árvores de Natal devam refletir apenas o que nos é natural. Deve refletir o que também nos é social: essa cidade repleta de gente de fora, do interior. Que trazem consigo parte do que lhes é natural, também. Que trazem consigo parte do que lhes é emocional.

Por isso, o Árvores de Natal irá apresentar, semanalmente, não apenas espécies características dos três principais ecossistemas que compõem a nossa cidade. Irá apresentar, também, as árvores que aqui chegaram pelas mãos de gente de fora e de gente de dentro. Desde que essas árvores reflitam Natal. Seja o clima, a cidade ou as pessoas.

Árvores de Natal terá muita Biologia, muita Evolução. Espero que isso não o afaste, porque quero lhe mostrar também a poesia dessa minha paixão.

Mas, o que, no fim das contas, é uma árvore?

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Publicado por: Lucila Brito | 19/09/2015

POR UMA PÓS-GRADUAÇÃO PRODUTIVA E LIVRE

A ideia que se faz de um ambiente acadêmico envolve adjetivos como inovador, dinâmico e estimulante. No entanto, essas características têm vazão, apenas, em um ambiente de debate, diálogo e interação. Do contrário, o que torna a atividade acadêmica rica e produtiva pode ser comprometido e a experiência acadêmica será limitada.

Isso é ainda mais preocupante quando a noção de liberdade de expressão é limitada a quem tem vantagem em uma relação de poder, podendo ser, perigosamente, deturpada a ponto de se configurar como exercício de desrespeito e, até, intolerância.

Quando a vida acadêmica é limitada, o trabalho criativo – necessário a uma produção acadêmica de qualidade, é represado. Em seu lugar, parece surgir um trabalho repetitivo e de baixo impacto. Seria a falta de debate, diálogo ou interação o problema da produção científica no Brasil?

A academia vive uma constante preocupação com a produtividade e isso parece estimular uma ideia enviesada de competitividade, nascida do debate raquítico na vida acadêmica. Havendo a necessidade de produção, mas em um contexto de debate insípido – com ausência de ideias criativas o suficiente para terem qualidade, é estabelecido, frequentemente, um perigoso cenário acadêmico: censura ao debate, ausência de cooperações, plágio, falsidade ideológica, etc. Isso se torna tão crítico que há estudos que relatam o comprometimento da saúde mental, tanto em alunos como em professores universitários. Parece ser criada uma experiência medíocre, baseado no produtivismo de baixa qualidade, aliado a perseguições e intrigas.

Para um ambiente acadêmico rico é necessário que se busque a abertura ao debate, ao conflito, a uma experiência acadêmica pulsante e franca. Livre de amarras ancoradas no individualismo e na troca de favores. Livre, sobretudo, do receio de que a expressão do outro comprometa a sua própria expressão. O conflito é matéria-prima para evolução e essa é a competição saudável. Fora isso, em vista do ambiente acadêmico se organizar em comunidades, só a cooperação pode dar bons resultados. E a cooperação real, em que cada um contribui com/contrapõe saberes para a construção de um todo significativo, o trabalho acadêmico.

Um horizonte acadêmico nebuloso

Um horizonte acadêmico nebuloso

A pós-graduação é o cerne do ambiente acadêmico. Há quem encare a encare como uma capacitação. Há, tanto da parte discente como docente, quem encare como um benefício financeiro. No entanto, a pós-graduação pode ser tais coisas, sem descuidar de sua meta principal: o desenvolvimento científico do país. É uma responsabilidade grande e a sociedade, que parece se movimentar (mesmo de forma ainda confusa), pode (e deve) vir a cobrar o retorno de seu investimento em ciência.

Os desafios que o séc. XXI traz à grande comunidade global parecem não comportar mais o individualismo, a repetição e a mediocridade. É papel do ambiente acadêmico – como campo de fronteira, tomar a frente na expressão da cooperação, da criatividade e da excelência.

Publicado por: Lucila Brito | 26/07/2015

A política ecológica do capitalismo (André Gorz)1

         O texto comentado corresponde ao terceiro capítulo do livro Teoria Social e Meio Ambiente. Como visto no primeiro capítulo, Goldblatt considera que a causa da degradação ambiental no mundo moderno resulta do capitalismo e da política de estado e, daí, busca analisar essa condição a partir do trabalho de André Gorz. Este sublinhou tais questões, tendo, ainda, tratado da problemática da tecnologia e do consumo.

            O autor observa pontos positivos na abordagem de Gorz, a saber: o problema ambiental no contexto da economia globalizada, as interpretações culturais de riqueza e bem-estar, além da já citada problemática da tecnologia e do consumo. Porém, a análise de Gorz teria partido de uma visão da dinâmica econômica e política em escala nacional (keyniana) e, isso, segundo o autor, comprometeu o entendimento da degradação em escala global, além de estabelecer uma visão determinista da ação do estado e dos efeitos da degradação ambiental, sob o ponto de vista socioambiental.

            Diante disso, o autor parte a analisar o trabalho do teórico a fim de superar essas limitações, para, assim, apresentar sua visão de como o capitalismo e a política, que, em conjunto, fomentam o consumo e a globalização, concorrem para a degradação ambiental e quais seriam as possíveis soluções para a crise ambiental.

            Ao trazer a discussão para o campo político e do modo de produção, Goldblatt iluminou o que se apresentou obscuro na leitura do capítulo 1: os aspectos inerentes do capitalismo que atuam para a degradação ambiental. Com isso, foi possível entender que a lógica do investimento-rendimento (sobretudo a partir do séc. XX) é, inexoravelmente, o motor da degradação ambiental e, ainda, estabelece a insustentabilidade do próprio sistema capitalista. Este, tendo em vista a necessidade de produção, consumo e rendimento altos, permanece em um estado denominado de crise, por Gorz e de negócios de rotina, por Goldblatt. O capitalismo, seria, então, um estado de constante tensão.

            Foi, ainda, esclarecedor, observar as estratégias adotadas pelos estados socialdemocratas e socialistas para lidar com a tensão capitalista. Enquanto países socialdemocratas buscam regular o mercado, países socialistas buscaram extingui-lo (obviamente, sem sucesso).

          Entretanto, mesmo Goldblatt demonstrando a causa que estabelece o capitalismo como motor da degradação ambiental, tanto as soluções apresentadas por Gorz, como as de Golblatt, requerem uma transformação política e social com dimensões revolucionárias. Porém, as estratégias estabelecidas pelos dois autores parecem muito aquém dessa necessidade.

          Segundo Goldblatt, Gorz advoga que a resolução para a crise capitalista, força propulsora da degradação ambiental, reside no rompimento do

[…] equilíbrio entre ‘mais’ e ‘melhor’, remodelando assim a racionalidade da economia para conseguir a separação conceptual [sic] e social do direito a um rendimento que advém da obrigação de trabalhar, e um equilíbrio de riqueza e bem-estar com o aumento dos tempos livres em vez do aumento do rendimento material. (p.132)

        Goldblatt analisa essa proposta e tece duras críticas a sua concepção vaga, o que parece correto. Porém, como alternativa a esta, apresenta:

        A política, face à degradação do ambiente, só pode escolher o menor de dois males […] o dilema político principal para a política de ambiente é controlar o capitalismo do ponto de vista social e ecológico. (p. 157)

        O autor ainda observa que “[…] a tarefa da política de ambiente deverá, ser, de momento, encontrar o modo como viver com o capitalismo” (p.157)

         Goldblatt chega a essa conclusão após apresentar ao leitor a lógica por trás da ação política de estado e estabelecer que qualquer política ambiental só se dá dentro dessa lógica e, assim, a degradação ambiental só pode ser limitada se for possível “ganhar e manter o poder político” (p.156). De modo que sua solução seria estratégica, conforme as conjunturas.

        Na conjuntura brasileira, por exemplo, as estratégias do estado para enfrentar a crise rotineira do capitalismo se assemelha a adotada por uma social-democracia, com o estímulo ao consumo, redução de impostos, embora haja esforços para que se dê a distribuição de renda. Porém, conforme Gorz teorizou, aprofundam-se problemas de acumulação individual sem que se resolvam o prejuízo social e a degradação ambiental. Com base no pensamento de Goldblatt, no contexto brasileiro, a resolução para o prejuízo social e a degradação ambiental inerentes ao capitalismo no Brasil passaria pela conquista de poder político, por meio da conscientização do consumidor, o que alteraria a opinião pública para que as tecnologias e políticas de estado considerassem os custos ambientais. Isso com base na visão de Goldblatt de que os impactos ambientais são construções sociais e dependem da visão da população para serem custeados (sempre apresentada como consumidor, o que enfatiza o predomínio do mercado no mundo moderno).

       Porém, tanto a perspectiva de conscientização popular para a construção de uma sociedade pós-capitalista, apresentada por Gorz, como a perspectiva de Golblatt de conscientização popular para a construção de uma social-democracia de consenso entre mercado e ambiente, parecem ser inalcançáveis, frente a forte sedução da dinâmica capitalista junto ao indivíduo e a comunidade. Qual indivíduo está disposto a mudar? Qual indivíduo está disposto a conscientizar? Que comunidade está disposta a se posicionar? Que sistema político está disposto a se reinventar? Se o socialismo se apresentou como um “fracasso total” (p. 157) no âmbito econômico e social, como qualquer alternativa poderia ser vitoriosa dentro do capitalismo? Em que pese o apelo moral da consciência ambiental, o apelo do consumismo parece ser mais eficiente.

         Diante disso, a previsão mais coerente com o estado atual do sistema político global é colocação final de Goldblatt, que vaticina os altos custos que a humanidade arcará pela “falta de cautela e a exigência de crescimento” (p.163).

GOLDBLATT, D. A política ambiental do capitalismo. In: Teoria Social e Ambiente. Instituto Piaget: Lisboa, 1996. p. 117-168.

O texto, de autoria de David Goldblatt e publicado na década de 1990 como primeiro capítulo do livro Teoria social e meio ambiente, discute as causas da degradação ambiental no mundo moderno. Para isso, traz dois conceitos da teoria social que descrevem a sociedade moderna: o capitalismo e o industrialismo.

Primeiramente, o autor aponta posicionamentos sobre a responsabilidade da degradação ambiental: para os partidos verdes europeus, o industrialismo é a causa, em quaisquer modelos econômicos; já para os marxistas, é o capitalismo e, por fim, para os economistas ambientais, a degradação ambiental no mundo moderno é de responsabilidade da má condução do modelo econômico capitalista. A fim de analisar esse debate, o autor usou como ponto de partida a obra de Giddens.

Assim, na sessão Teoria social de Giddens: um resumo, o autor traz um resumo dos trabalhos do sociólogo Anthony Giddens, por meio do resgate de sua obra desde a década de 1970. Esta consistiria em três fases: resgate e análise dos teóricos sociais do séc. XIX, a proposição da teoria da estruturação e o enfoque na modernidade. Dentro do contexto do estudo da modernidade, Giddens teria enveredado para a questão ambiental, a partir da década de 1980. Nisso, teria refletido sobre o papel do capitalismo e do industrialismo na degradação ambiental e, de modo geral, das transformações da natureza que caracterizam o mundo moderno. O autor estabelece esse perfil por meio da análise de nove obras de Giddens.

Na sessão Giddens: capitalismo, industrialismo e modernidade, a fim de analisar a obra de Giddens no contexto da questão ambiental, o autor passa a apresentar as visões do sociólogo sobre capitalismo, industrialismo e modernidade. Nisso, discute que Giddens consideraria capitalismo e industrialismo como fenômenos singulares, independentes e irredutíveis. Para isso, Giddens consideraria a visão de Marx, que estabelece o industrialismo como consequência de uma sociedade capitalista, porém, utiliza a visão de Weber para a descrição do capitalismo e introduz a teoria da transformação das coisas em mercadoria, incluindo a força de trabalho. Nesse contexto, Giddens não reconheceria uma sociedade industrial e, sim, uma sociedade capitalista que dá o substrato ideal para a ascensão, expansão e hegemonia do industrialismo, muito embora este tenha ocorrência em sociedades pré-industriais e vigore mesmo em sociedades socialistas.

Quanto ao papel do capitalismo e do industrialismo na degradação ambiental no mundo moderno, o autor discute que Giddens teria apresentado, ao longo de sua obra, duas visões contraditórias: inicialmente, teria considerado que o maior impacto ambiental do industrialismo foi quando combinado com o capitalismo; porém, mais adianta em sua obra, teria se declarado a favor da supremacia do industrialismo, maior ainda que o capitalismo ou capitalismo industrial, no estabelecimento do ambiente criado e na transformação da natureza. Conforme o autor, isso seria evidenciado na obra The Consequence of Modernity. Porém, o autor se opõe fortemente a essa visão final de Giddens e passa, então, a esclarecer sua concepção de que um industrialismo é um instrumento, não a causa, da transformação do ambiente.

Para isso, o autor apresenta suas metas de discussão: clarificar a interação entre sociedade e ambiente, por meio de uma descrição reformulada do industrialismo, especificar a contribuição particular do industrialismo para a degradação ambiental, explicar como o capitalismo, e mais especificamente, o capitalismo de Estado, são os responsáveis pela degradação ambiente, por mecanismos distintos e; iniciar a investigação do papel das forças políticas e culturais na ajuda, redução e, eventualmente, na resistência ao processo de degradação do ambiente.

Assim, nas sessões seguintes, dedica-se caracterizar o ambiente natural, redefinir os entendimentos das ideias de sociedade, meio ambiente, classificar as transformações da natureza e os impactos advindos destas, para, finalmente, definir o que venha a ser degradação ambiental. Faz isso com o intuito de estabelecer um modelo abstrato da relação entre a sociedade e o meio ambiente. Dessa análise, surgem os conceitos de causas diretas e causas estruturais para as transformações ambientais, sendo as primeiras advindas das interações diretas entre sociedade-natureza e, as segundas, advindas de pressões históricas e estruturais. Para o primeiro grupo, citou como exemplo a demografia e, para o segundo grupo, os fatores que estabelecem os padrões demográficos. São esses fatores que, em última análise, estabeleceriam a evolução de uma transformação da natureza em uma degradação ambiental.

Após análise extensa, o autor apresenta as bases de sua visão de que o capitalismo seria uma causa estrutural da degradação ambiental no mundo moderno, sendo o industrialismo uma causa direta. Baseia isso na avaliação de que a degradação ambiental seria de responsabilidade das premissas do capitalismo, sendo estas: aumento da procura constante por produtos; preços de mercado e propriedade privada; mudanças na cultura dos hábitos de consumo. Aliado a estrutura do capitalismo concorrendo para a degradação ambiental no mundo moderno, o autor traz a ação do poder político. Nesse ponto, é possível notar que a argumentação do autor se torna ambígua, o que se estende até o fim do capítulo.

Isso porque, embora o autor conclua, corretamente, que a degradação ambiental do mundo moderno relaciona-se com o modo de produção capitalista, hegemônico no mundo contemporâneo, não é estabelecida uma relação clara entre o capitalismo e a degradação ambiental. Pelo contrário, ao final do capítulo, ao relacionar capitalismo e socialismo como motores da degradação ambiental diz que “… a distribuição injusta do poder político [no capitalismo e no socialismo] que lhes é peculiar, e uma lógica econômica de necessidades incontrolada de consumo, público e privado” (p. 81) não consegue estabelecer que característica do capitalismo é o diferencial para que este seja responsável pela degradação ambiental, ficando a sensação de que o capitalismo seria uma espécie de exacerbação das relações de poder político e econômico existentes em quaisquer sociedades, inclusive nas sociedades socialistas. Assim, o capitalismo parece ser a causa principal da degradação ambiental no mundo moderno porque permite que o potencial de transformação da natureza desafie o limite natural. É importante salientar que essa é a impressão a apreendida da leitura isolada do capítulo. Em um capítulo seguinte, o autor esclarece seu argumento.

Diante disso, embora o capitalismo possa vir a ter expandido ao máximo o potencial de degradação ambiental das sociedades humanas, e o industrialismo se apresente como uma ferramenta de grande eficácia nessa consequência negativa, parece ser, em última análise, a visão utilitarista da natureza responsável pelas transformações ambientais e, em sociedades altamente produtivas, pela degradação ambiental. De tal modo, que isso vem sido discutido em quaisquer grandes civilizações, seja Maia, Rapa Nui ou a sociedade globalizada contemporânea.

1 GOLDBLATT, D. Capitalismo, industrialismo e a transformação da natureza. In: Teoria Social e Ambiente. Instituto Piaget: Lisboa, 1996. p. 35-81.

Publicado por: Lucila Brito | 26/07/2015

Meio Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento

Acerca de seis meses, iniciei um doutorado na UFCG. Pós-graduação em Recursos Naturais. Desde então, minha vida tem sido ler e escrever textos sobre política, sociologia e meio ambiente. São assuntos do meu agrado, com leituras áridas e produções penosas. Para coloca-las em debate, irei publicar o que consegui produzir aqui.

Então, senta que lá vem a história!

Publicado por: Lucila Brito | 03/09/2013

Cantico di Frate Sole*

Publicado por: Lucila Brito | 30/08/2013

Melhorem, Entidades Médicas…

Perdoem-me se for preconceito, mas a atitude das médicas que foram se manifestar contra o Mais Médicos no Ceará tem cara de xenofobia e racismo. Será que são médicas, mesmo? Afe, que terrível. Médico, geralmente, tem postura profissional, tem atitude cortês, impõe-se a partir da maturidade… Coitados de seus pacientes. Será que elas entendem de humanidade? E de respeito? Deus proteja o nosso povo!

*Baseado nas palavras da musa, nada inspiradora, Micheline Borges.

Publicado por: Lucila Brito | 27/08/2013

À Margem

Já comentei aqui que, na Paraíba, sou ribeirinha. Esta manhã, tomei um caminho alternativo e passei pela rua que fica a margem do rio. Margem do rio não é força de expressão, porque o meio-fio da rua não fica a 10 metros do leito.

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Antigo casario à beira do rio Jaguaribe, em João Pessoa/PB.

Entre o leito e o meio-fio, não tem nada de mata ciliar, é terra nua. Meses atrás, eram casas que foram demolidas pela prefeitura em uma ação de urbanização e realojamento dos moradores da área. Foram construídos pequenos prédios, com três andares, para as novas moradia. Um destes, bem próximo ao local original, também à margem do rio.

Não conheço o projeto da prefeitura, mas me parece bem mal costurado, quanto à questão de urbanização. Há meses que aquela área é terra nua. As matas ciliares são importantes porque, dentre outras coisas, protegem os rios de assoreamento. E, com chuvas, o risco é bem maior.

Foi isso o que vi esta manhã. Uma escavadeira se ocupava em retirar toneladas de terra que correram para o rio, com as chuvas dos últimos meses. Trabalho perdido, porque, logo que voltar a chover, irá assorear tudo novamente. É tanto que sempre há uma escavadeira passando por minha rua, transversal a rua à margem do rio.

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Escavadeira, em operação inútil de retirada de resíduos de assoreamento do fundo do rio Jaguaribe, em João Pessoa/PB.

Vocês não se abestalham com a falta de planejamento público? Como é possível tanta gambiarra vinda de gestores capacitados? Primeiro, construíram as novas habitações em local de tanto risco quanto as antigas. Depois transferiram a população, demoliram as habitações antigas e, por meses, deixaram o entulho na área, para abrigo de insetos, animais e doenças. A limpeza da área coincidiu com o início do período chuvoso, o que está sendo traduzido no assoreamento das margens. Claro, não deve haver nenhuma etapa de reflorestamento no projeto. Isso é supérfluo para o poder público. Um bom negócio é, talvez, alugar uma escavadeira e remover ad eternum  a terra que se depositará no fundo do rio.

Esse não é o paisagismo esperado em uma área urbana. João Pessoa/PB.

Esse não é o paisagismo esperado em uma área urbana. João Pessoa/PB.

E se, acaso, uma chata como eu fizer uma denúncia ao Ministério Público sobre a possibilidade de estar havendo descumprimento ao Código Florestal naquela área, o prejuízo político é ainda maior. Só político, mesmo, que essa lei já serviu, em um passado distante, para proteger Áreas de Preservação Permanente – APPs, hoje, muita coisa é utilidade pública ou interesse social. Tristemente, menos a preservação dos recursos hídricos.

Publicado por: Lucila Brito | 23/08/2013

O Desamor, a Crítica e o Sansevieria

Acho que mudarei o nome deste blog para “O Que Uma Bióloga Acha Sobre As Polêmicas Que Lê No Twitter”. Porque toda vez que aperto o passarinho virtual no celular, assisto uma batalha campal diferente.

Ontem, a questão era feministas versus um rap. Demorei a entender porque sigo uma única feminista militante virtual, que está atarefada com sua vida real. Na verdade, geralmente, elejo um representante de cada interesse meu para seguir e, eventualmente, acabo ficando a par das pautas de todos os assuntos, porque o twitter é bem repetitivo.

Foi assim, que o representante do tópico “cultura” trouxe a polêmica da canção “Trepadeira”, do novo álbum do rapper Emicida. Tentei participar da discussão, mas o meu comentário foi censurado nesta coluna e ignorado neste artigo. Assim, minha vontade de dar pitaco foi frustrada. A canção traz uma diversidade de metáforas com flores, então, pensei em superar esse trauma trazendo o assunto para este incrível espaço de angiospermas. E cá estou eu, em mais uma fugida ao tema deste blog.

Em resumo, a canção conta a desventura amorosa de um rapaz que, enamorado de uma moçoila exuberante, vê seu sentimento amargar no falatório alheio a respeito dos hábitos libertinos de sua amada. A amargura é grande e, lá pelas tantas, com o coração partido, os pensamentos do rapaz entram, com cores violentas, em fantasias sobre desforra mística.

Acontece que as moças feministas não gostaram. E não entenderam a referência a religiões afro-brasileiras. Mas, como todos sabemos, a Etnobotânica está aí para resolver esses assuntos, mesmo.

Isso porque o trecho mais polêmico da canção diz o seguinte:

“E tu vem, meu coração parte e grita assim:

ARRASA BI…SCATE!!!

Merece era uma surra de espada de São Jorge,

um chá de comigo ninguém pode.

(É, eu vou botar teu nome na macumba viu?! se segura!)”

As feministas interpretaram como uma alusão a agressão física. Sei, o discurso é ambíguo, mas a realidade é ambígua, também. Eu mesma achei se tratar, a primeira vista, de uma metáfora sexual… Freud explica. Mas, talvez, com um pouco mais de interesse em conhecer outras visões de mundo, nossa leitura possa ser mais proveitosa. E, até, mais rica que a do letrista, com o perdão da pretensão.

Espada de São Jorge e Comigo-Ninguém-Pode são plantas herbáceas. E podem ser usadas em rituais de religiões afro-brasileiras, ou, mesmo, na cultura popular, para fins de purificação. Não sei vocês, mas eu acho que um amante pretensamente traído não teria pudor nenhum de usar uma crença para se curar de seu ex-amor. E, isso, não é machismo. É dor de cotovelo, mesmo.

Se houve uma alusão à violência física, a própria canção tratou de desfazer a ambiguidade, com uma citação de um samba de Zeca Pagodinho (“É, eu vou botar teu nome na macumba viu?! se segura!“”). Não nos custa fazer a leitura por inteiro, a não ser que não queiramos isso, mesmo.

Se há ódio no discurso do rapaz, não é se afastando do conflito que isso irá mudar. Oxalá que todas as entidades nos livrem de uma arte panfletária, ausente de conflitos!

Houve, ainda, crítica a forma depreciativa que uma mulher com hábitos poligâmicos estaria sendo apresentada, como no refrão, por exemplo:

“Você era o cravo e ela era a rosa,

e cá entre nós, gatinha, quem não fica bravo

dando sol e água, e vendo brotar erva daninha.

Chamei de banquete era fim de feira,

estendi tapete mas ela é rueira.

Dei todo amor, tratei como flor,

mas no fim era uma trepadeira.”

As feministas da internet argumentam que esse trecho reflete a visão misógina do patriarcado, dando conotação negativa aos hábitos sexuais da moça preterida. E reflete isso, mesmo. Mas isso gera alguma empatia?

Ouvi a canção algumas vezes (e, confesso, cada vez gosto mais), mas, desde a primeira audição, simpatizei com a moça, não com o rapaz.

A moça, com o mundo gritando “arrasa, bi!”, parece linda, livre e confiante. O rapaz, com seu vício por vigiar, sua atenção exagerada à falação dos manos e da mamãe e seu desejo por uma Madre Teresa, só deu a impressão de ciumento, inseguro e falso cristão, que, ao se desencantar, parte da fantasia de casamento católico para a de colocar o nome da nega na macumba.

Não quero diminuir a causa, mas acho que essa é só mais uma canção de desamor da MPB. E das boas, minhas companheiras. Até para a luta feminista. Temos um “corno” salgueiro-chorão, e uma “biscate” florescida.

Para terminar, alguns exemplos de rapazes imaturos desencantados, agora, pelas mãos de Chico Buarque, a quem, pelo que li no twitter, as feministas de lá  amam idolatrar, assim como eu.

“Ah, Rosa, e o meu projeto de vida?

Bandida, cadê minha estrela guia?

Vadia, me esquece na noite escura

Mas jura

Me jura que um dia volta pra casa”

A Rosa

“Você só dança com ele

E diz que é sem compromisso

É bom acabar com isso

Não sou nenhum pai-joão

Quem trouxe você fui eu

Não faça papel de louca

Prá não haver bate-boca dentro do salão

Sem Compromisso*

 “A Rita matou nosso amor

De vingança

Nem herança deixou

Não levou um tostão

Porque não tinha não

A Rita

 

“Aliás,

Aceite uma ajuda do seu futuro amor

Pro aluguel

Devolva o Neruda que você me tomou

E nunca leu”

Trocando em Miúdos

* Canção de Geraldo Pereira e Nelson Trigueiro, famosa na interpretação de Chico Buarque.

Publicado por: Lucila Brito | 09/08/2013

Da Lama ao Caos*

“Deixar que os fatos sejam fatos naturalmente, sem que sejam forjados para acontecer.
Deixar que os olhos vejam pequenos detalhes lentamente.
Deixar que as coisas que lhe circundam estejam sempre inertes, como móveis inofensivos, pra lhe servir quando for preciso, e nunca lhe causar danos morais, físicos ou psicológicos”
 
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“Mangue, mangue, mangue” – Baía da Traição/PB – 2011

Esses dias, conheci o Coletivo Fora do Eixo e me empolguei com um exercício de pensamento ecológico.

Acontece que, nesta semana, como desdobramento dos eventos de junho de 2013, enfim, o quarto poder entrou na pauta. Só que, a exemplo dos outros atores, o quarto poder não se manifestou de seu modo usual. Surgiu a Mídia Ninja.

A Mídia Ninja, meus queridos leitores imaginários, é um jogo em rede real. Temos o repórter com um celular ligado em uma rede social que permite a transmissão e a interação entre os espectadores e a ação, que ocorre ao vivo. Temos o repórter dialogando com os espectadores, os manifestantes, a mediação (OAB) e a força policial. Temos o repórter interferindo na ação, conforme o desenrolar e, daí, surge propriedades emergentes. É ativismo virtual. É, portanto, a coisa mais envolvente que poderia surgir para esta geração, como novas ferramentas atenderam gerações anteriores.

Quando a Mídia Ninja mostrou o seu potencial de quarto poder, não tardou para que se levantassem os questionamentos. Mas a quem serve esse poder? Um poder só é poder se está a serviço de alguém, não é? Em tese, a mídia deveria servir a verdade, mas pouca gente tem o pudor de tentar manter essa compostura, ainda. Então, a Mídia Ninja deveria servir a alguém.

Várias foram as hipóteses, até que se chegou a uma estrutura precária surgida do colapso da indústria musical, nos anos 90: o mercado cultural alternativo. Não é fascinante isso? No momento em que tudo que é sólido se desmancha no ar, no caminho, surge um filho bastardo da primeira leva da queda do capitalismo industrial (não entendo nada de Economia, estou só enfeitando a narrativa).

E, aparentemente, em um dos seus modelos mais produtivos na atualidade brasileira, a semente de uma Rizhophora mangle foi cultivada. Trata-se do Coletivo Fora do Eixo. Ninguém entende como funciona o modelo de negócio desse tal “coletivo” e muitas críticas chovem, em textos que, logo, logo, atingem todos os volumes de O Capital. Bem oportunas, mas, não há como não observar que tais críticas servem muito aos dinossauros da indústria midiática que lutam contra os sistemas esquisitos que se expande pelas periferias dos Brasis.

Como ninguém entende o que está acontecendo, eu me sinto muito a vontade em apresentar meu exercício ecológico para o “modelo de negócio” Fora do Eixo. Adianto que não é uma defesa, não sei se o modelo deles é legal ou ilegal, justo ou injusto, eficiente ou ineficiente, eficaz ou ineficaz… Mas gostaria de entendê-lo, antes de abortar a criatura. Nós biólogos somos assim: não importa o quão feio seja o bicho, é sempre fascinante tentar entender como ele vive.

Bom o que assimilei da entrevista que os porta-vozes (Messias? Poderosos chefões?) deram ao Roda Viva  é que o Fora do Eixo é uma cooperativa cultural difusa pelo Brasil. As diversas estações realizam trocas culturais com a comunidade em que estão inseridas, sejam apresentações musicais, de cinema, de dança, etc. Esses eventos de troca são impulsionados por uma rede de informação: textos, cartazes, flyers, teasers, clips, twitters e postagens em geral nas redes virtuais. Claro, isso é um sistema aberto, que precisa de entradas de energia para funcionar que, no modelo econômico atual, são os eventos culturais em si.

O capitalismo, sistema econômico hegemônico, traduz a energia de seus sistemas em dinheiro que, invariavelmente, é acumulado e desigualmente distribuído. O que resultaria de energia acumulada e, mais, mal distribuída? É por isso que os castelos desmoronam mundo a fora, em minha opinião de bióloga ingênua.

O que eu vi no modelo Fora do Eixo foi que parece que essa energia circularia sem se acumular nas estações, mas em estoques, que eles chamam de bancos. Esses estoques fomentariam o pró-labore dos trabalhadores, a manutenção do coletivo, a produção dos eventos e novos projetos político-sociais, como o Mídia Ninja.

Mas há uma peculiaridade no modelo Fora do Eixo: as atrações artísticas seriam jovens (assim como os trabalhadores que produz a informação), sem experiência e sem público. Então, como gerariam os recursos necessários para manter toda essa estrutura? Aí é que entra a necessidade de captação de subsídios externos, governamentais.

E é aí que o Fora do Eixo parece se diferenciar de outros atores do mercado de cultura alternativo. O Coletivo parece ter muita habilidade nessa tarefa, captando muitos recursos e investido na manutenção de todo o sistema Fora do Eixo.

Para mim, o modelo Fora do Eixo é um modelo muito semelhante ao ecossistema mangue. Estes, são ecossistemas naturais limítrofes que dependem de energia solar, com subsídios de outras fontes naturais de energia, no caso, as marés, as ondas e as correntes fluviais (1). Essa energia se encarrega de fazer circular minerais, nutrientes e resíduos, de modo que os organismos ali presentes concentram seu trabalho na conversão de energia em matéria orgânica. São, portanto, bem mais produtivos, porque o custo de manutenção de um espécime é reduzido. Nas palavras de Odum, “os organismos do estuário estão adaptados para usar a energia de marés”, em sua rede modesta e diligente.

"Um curupira já tem o seu tênis importado/ Não conseguimos acompanhar o motor da história" - Sagi/RN - 2007

“Um curupira já tem o seu tênis importado/
Não conseguimos acompanhar o motor da história” – Sagi/RN – 2007

Os mangues são berçários, já ouviram falar? Lá, vivem muitos estágios primários de vida, inclusive, de grandes animais marinhos. Lá, não existem grandes predadores, que consumiriam esse grande aporte de energia rapidamente, o que tornaria despropositado esse subsídio externo. Há pequenos animais e microorganismos, que, em sua grande produtividade, nutrem ecossistemas externos, maduros e maiores.

Mas é facilmente perturbável, sobretudo, se algo altera o subsídio de energia que os mantém.

Por isso, acho que o modelo Fora do Eixo funcionaria como um mangue, um berçário do mercado de serviços brasileiro, em que microrganismos e pequenos animais interagiriam para manutenção de uma estrutura que mantém a eles e a outros modelos de negócio com os quais se comunicam.

Mas, claro, não somos bactérias ou caranguejos e estamos habituados com o sistema de acumulação de capital e lucro, mesmo que este mesmo nos exclua. Queremos o reconhecimento de nosso trabalho, porque já não somos mais apenas larvinhas. Talvez nunca tenhamos sido, mas achamos o modelo instigante e fomos pisar com nossos pés consumistas na lama mal cheirosa do mangue. Seja porque crescemos ou porque percebemos que nos enganamos de habitat, vamos completar a nossa ontogenia em outras águas, com a fertilidade que o mangue Fora do Eixo nos proporcionou.

"Ninguém foge a vida suja dos dias da Manguetown" - Manguetown, no inconsciente coletivo da geração manguebeat, que Pedro Alexandre Sanches falou.

“Ninguém foge a vida suja dos dias da Manguetown” – Manguetown, no inconsciente coletivo da geração manguebeat, que o jornalista falou**.

* Esta postagem tem trilha sonora: http://www.vagalume.com.br/chico-science-nacao-zumbi/discografia/afrociberdelia.html

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(1) Odum, E.P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988.

Publicado por: Lucila Brito | 12/07/2013

Ribeira

Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas no céu, refleti-las
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.
(Manuel Bandeira – O Rio)

Em João Pessoa, sou ribeirinha. Meu prédio fica a cerca de 500m da margem de um rio, o Jaguaribe. O Rio Jaguaribe é um cidadão pessoense: nasce e deságua dentro da capital paraibana. E, pelo pouco que tenho aprendido, assemelha-se a muitos cidadãos que compartilham o mesmo espaço físico que ele.

Nestes dias, tenho aprendido muito sobre o Rio Jaguaribe. É um dos principais que banham João Pessoa. Atravessa a belíssima Mata do Buraquinho. Desagua no Rio Mandacaru, depois que seu curso foi alterado há mais de meio século. Serviu de manancial para a esta capital. Está morrendo.

O vizinho Jaguaribe em dias de junho de 2013.

O vizinho Jaguaribe em dias de junho de 2013.

Suspeitava disso, ao observa-lo calvo e tísico no Bairro São José, espremido entre palafitas, o maior shopping da cidade e o bairro arborizado e bem planejado em que vivo. Parecia um velho morador de rua, sujo e maltrapilho, que está bem no meio da cidade, bem no meio de todo o burburinho, mas que ninguém se dá conta dele. E, assim, segue seu curso, esgueirando-se pelos meandros, em um esforço suicida por mais oxigênio que nutrirá seus últimos suspiros.

Mas pensava que se assemelhava ao Rio Potengi de minha cidade Natal, com uma nascente preservada que pudesse permitir uma maior sobrevida. Infelizmente, o Rio Jaguaribe nasce e está sendo morto dentro de João Pessoa. Isso não faz de quem o deveria preservar mais culpado que os que também matam o Potengi. É apenas mais triste e cruel.

O ocaso do Rio Jaguaribe lembra o que fazemos com os idosos que, quando não nos servem mais, deixamos que morram a mingua. Porque esse rio já abasteceu de boa água João Pessoa. Agora, a cidade busca outras fontes, mais raras e mais caras. É o preço que se paga por esbanjar nossos velhos recursos.

Gosto muito da cidade, que tem um ar de interior. Além disso, diferentemente de Natal, o que é agredido e o que agride convivem no mesmo espaço, bem a vista de todos. Sei que isso não é algo digno de orgulho, mas aprecio o fato de que, assim, fica explícito tudo para o que fechamos os olhos e viramos a cara.

Eutrofização estrangula o Rio Jaguaribe em abril de 2013.

Eutrofização estrangula o Rio Jaguaribe em abril de 2013.

O confronto social em Natal é quase um momento íntimo, porque, para grande parte da parcela privilegiada da população, dá-se em um sinal fechado. Só ali a marginalização social é encarada, apenas entre as duas partes, separadas pelo para-brisas do carro.

A agonia do Rio Jaguaribe e suas mazelas são públicas, acessíveis a todos os sentidos de sua população ribeirinha. Quer esta more em palafitas, quer visite o maior shopping da cidade, quer viva no confortável prédio do bairro arborizado e bem planejado de João Pessoa.

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