Publicado por: Lucila Brito | 12/07/2013

Ribeira

Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas no céu, refleti-las
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.
(Manuel Bandeira – O Rio)

Em João Pessoa, sou ribeirinha. Meu prédio fica a cerca de 500m da margem de um rio, o Jaguaribe. O Rio Jaguaribe é um cidadão pessoense: nasce e deságua dentro da capital paraibana. E, pelo pouco que tenho aprendido, assemelha-se a muitos cidadãos que compartilham o mesmo espaço físico que ele.

Nestes dias, tenho aprendido muito sobre o Rio Jaguaribe. É um dos principais que banham João Pessoa. Atravessa a belíssima Mata do Buraquinho. Desagua no Rio Mandacaru, depois que seu curso foi alterado há mais de meio século. Serviu de manancial para a esta capital. Está morrendo.

O vizinho Jaguaribe em dias de junho de 2013.

O vizinho Jaguaribe em dias de junho de 2013.

Suspeitava disso, ao observa-lo calvo e tísico no Bairro São José, espremido entre palafitas, o maior shopping da cidade e o bairro arborizado e bem planejado em que vivo. Parecia um velho morador de rua, sujo e maltrapilho, que está bem no meio da cidade, bem no meio de todo o burburinho, mas que ninguém se dá conta dele. E, assim, segue seu curso, esgueirando-se pelos meandros, em um esforço suicida por mais oxigênio que nutrirá seus últimos suspiros.

Mas pensava que se assemelhava ao Rio Potengi de minha cidade Natal, com uma nascente preservada que pudesse permitir uma maior sobrevida. Infelizmente, o Rio Jaguaribe nasce e está sendo morto dentro de João Pessoa. Isso não faz de quem o deveria preservar mais culpado que os que também matam o Potengi. É apenas mais triste e cruel.

O ocaso do Rio Jaguaribe lembra o que fazemos com os idosos que, quando não nos servem mais, deixamos que morram a mingua. Porque esse rio já abasteceu de boa água João Pessoa. Agora, a cidade busca outras fontes, mais raras e mais caras. É o preço que se paga por esbanjar nossos velhos recursos.

Gosto muito da cidade, que tem um ar de interior. Além disso, diferentemente de Natal, o que é agredido e o que agride convivem no mesmo espaço, bem a vista de todos. Sei que isso não é algo digno de orgulho, mas aprecio o fato de que, assim, fica explícito tudo para o que fechamos os olhos e viramos a cara.

Eutrofização estrangula o Rio Jaguaribe em abril de 2013.

Eutrofização estrangula o Rio Jaguaribe em abril de 2013.

O confronto social em Natal é quase um momento íntimo, porque, para grande parte da parcela privilegiada da população, dá-se em um sinal fechado. Só ali a marginalização social é encarada, apenas entre as duas partes, separadas pelo para-brisas do carro.

A agonia do Rio Jaguaribe e suas mazelas são públicas, acessíveis a todos os sentidos de sua população ribeirinha. Quer esta more em palafitas, quer visite o maior shopping da cidade, quer viva no confortável prédio do bairro arborizado e bem planejado de João Pessoa.

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