Publicado por: Lucila Brito | 26/07/2015

Capitalismo, industrialismo e a transformação da natureza (Anthony Giddens)1

O texto, de autoria de David Goldblatt e publicado na década de 1990 como primeiro capítulo do livro Teoria social e meio ambiente, discute as causas da degradação ambiental no mundo moderno. Para isso, traz dois conceitos da teoria social que descrevem a sociedade moderna: o capitalismo e o industrialismo.

Primeiramente, o autor aponta posicionamentos sobre a responsabilidade da degradação ambiental: para os partidos verdes europeus, o industrialismo é a causa, em quaisquer modelos econômicos; já para os marxistas, é o capitalismo e, por fim, para os economistas ambientais, a degradação ambiental no mundo moderno é de responsabilidade da má condução do modelo econômico capitalista. A fim de analisar esse debate, o autor usou como ponto de partida a obra de Giddens.

Assim, na sessão Teoria social de Giddens: um resumo, o autor traz um resumo dos trabalhos do sociólogo Anthony Giddens, por meio do resgate de sua obra desde a década de 1970. Esta consistiria em três fases: resgate e análise dos teóricos sociais do séc. XIX, a proposição da teoria da estruturação e o enfoque na modernidade. Dentro do contexto do estudo da modernidade, Giddens teria enveredado para a questão ambiental, a partir da década de 1980. Nisso, teria refletido sobre o papel do capitalismo e do industrialismo na degradação ambiental e, de modo geral, das transformações da natureza que caracterizam o mundo moderno. O autor estabelece esse perfil por meio da análise de nove obras de Giddens.

Na sessão Giddens: capitalismo, industrialismo e modernidade, a fim de analisar a obra de Giddens no contexto da questão ambiental, o autor passa a apresentar as visões do sociólogo sobre capitalismo, industrialismo e modernidade. Nisso, discute que Giddens consideraria capitalismo e industrialismo como fenômenos singulares, independentes e irredutíveis. Para isso, Giddens consideraria a visão de Marx, que estabelece o industrialismo como consequência de uma sociedade capitalista, porém, utiliza a visão de Weber para a descrição do capitalismo e introduz a teoria da transformação das coisas em mercadoria, incluindo a força de trabalho. Nesse contexto, Giddens não reconheceria uma sociedade industrial e, sim, uma sociedade capitalista que dá o substrato ideal para a ascensão, expansão e hegemonia do industrialismo, muito embora este tenha ocorrência em sociedades pré-industriais e vigore mesmo em sociedades socialistas.

Quanto ao papel do capitalismo e do industrialismo na degradação ambiental no mundo moderno, o autor discute que Giddens teria apresentado, ao longo de sua obra, duas visões contraditórias: inicialmente, teria considerado que o maior impacto ambiental do industrialismo foi quando combinado com o capitalismo; porém, mais adianta em sua obra, teria se declarado a favor da supremacia do industrialismo, maior ainda que o capitalismo ou capitalismo industrial, no estabelecimento do ambiente criado e na transformação da natureza. Conforme o autor, isso seria evidenciado na obra The Consequence of Modernity. Porém, o autor se opõe fortemente a essa visão final de Giddens e passa, então, a esclarecer sua concepção de que um industrialismo é um instrumento, não a causa, da transformação do ambiente.

Para isso, o autor apresenta suas metas de discussão: clarificar a interação entre sociedade e ambiente, por meio de uma descrição reformulada do industrialismo, especificar a contribuição particular do industrialismo para a degradação ambiental, explicar como o capitalismo, e mais especificamente, o capitalismo de Estado, são os responsáveis pela degradação ambiente, por mecanismos distintos e; iniciar a investigação do papel das forças políticas e culturais na ajuda, redução e, eventualmente, na resistência ao processo de degradação do ambiente.

Assim, nas sessões seguintes, dedica-se caracterizar o ambiente natural, redefinir os entendimentos das ideias de sociedade, meio ambiente, classificar as transformações da natureza e os impactos advindos destas, para, finalmente, definir o que venha a ser degradação ambiental. Faz isso com o intuito de estabelecer um modelo abstrato da relação entre a sociedade e o meio ambiente. Dessa análise, surgem os conceitos de causas diretas e causas estruturais para as transformações ambientais, sendo as primeiras advindas das interações diretas entre sociedade-natureza e, as segundas, advindas de pressões históricas e estruturais. Para o primeiro grupo, citou como exemplo a demografia e, para o segundo grupo, os fatores que estabelecem os padrões demográficos. São esses fatores que, em última análise, estabeleceriam a evolução de uma transformação da natureza em uma degradação ambiental.

Após análise extensa, o autor apresenta as bases de sua visão de que o capitalismo seria uma causa estrutural da degradação ambiental no mundo moderno, sendo o industrialismo uma causa direta. Baseia isso na avaliação de que a degradação ambiental seria de responsabilidade das premissas do capitalismo, sendo estas: aumento da procura constante por produtos; preços de mercado e propriedade privada; mudanças na cultura dos hábitos de consumo. Aliado a estrutura do capitalismo concorrendo para a degradação ambiental no mundo moderno, o autor traz a ação do poder político. Nesse ponto, é possível notar que a argumentação do autor se torna ambígua, o que se estende até o fim do capítulo.

Isso porque, embora o autor conclua, corretamente, que a degradação ambiental do mundo moderno relaciona-se com o modo de produção capitalista, hegemônico no mundo contemporâneo, não é estabelecida uma relação clara entre o capitalismo e a degradação ambiental. Pelo contrário, ao final do capítulo, ao relacionar capitalismo e socialismo como motores da degradação ambiental diz que “… a distribuição injusta do poder político [no capitalismo e no socialismo] que lhes é peculiar, e uma lógica econômica de necessidades incontrolada de consumo, público e privado” (p. 81) não consegue estabelecer que característica do capitalismo é o diferencial para que este seja responsável pela degradação ambiental, ficando a sensação de que o capitalismo seria uma espécie de exacerbação das relações de poder político e econômico existentes em quaisquer sociedades, inclusive nas sociedades socialistas. Assim, o capitalismo parece ser a causa principal da degradação ambiental no mundo moderno porque permite que o potencial de transformação da natureza desafie o limite natural. É importante salientar que essa é a impressão a apreendida da leitura isolada do capítulo. Em um capítulo seguinte, o autor esclarece seu argumento.

Diante disso, embora o capitalismo possa vir a ter expandido ao máximo o potencial de degradação ambiental das sociedades humanas, e o industrialismo se apresente como uma ferramenta de grande eficácia nessa consequência negativa, parece ser, em última análise, a visão utilitarista da natureza responsável pelas transformações ambientais e, em sociedades altamente produtivas, pela degradação ambiental. De tal modo, que isso vem sido discutido em quaisquer grandes civilizações, seja Maia, Rapa Nui ou a sociedade globalizada contemporânea.

1 GOLDBLATT, D. Capitalismo, industrialismo e a transformação da natureza. In: Teoria Social e Ambiente. Instituto Piaget: Lisboa, 1996. p. 35-81.

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