Publicado por: Lucila Brito | 26/07/2015

A política ecológica do capitalismo (André Gorz)1

         O texto comentado corresponde ao terceiro capítulo do livro Teoria Social e Meio Ambiente. Como visto no primeiro capítulo, Goldblatt considera que a causa da degradação ambiental no mundo moderno resulta do capitalismo e da política de estado e, daí, busca analisar essa condição a partir do trabalho de André Gorz. Este sublinhou tais questões, tendo, ainda, tratado da problemática da tecnologia e do consumo.

            O autor observa pontos positivos na abordagem de Gorz, a saber: o problema ambiental no contexto da economia globalizada, as interpretações culturais de riqueza e bem-estar, além da já citada problemática da tecnologia e do consumo. Porém, a análise de Gorz teria partido de uma visão da dinâmica econômica e política em escala nacional (keyniana) e, isso, segundo o autor, comprometeu o entendimento da degradação em escala global, além de estabelecer uma visão determinista da ação do estado e dos efeitos da degradação ambiental, sob o ponto de vista socioambiental.

            Diante disso, o autor parte a analisar o trabalho do teórico a fim de superar essas limitações, para, assim, apresentar sua visão de como o capitalismo e a política, que, em conjunto, fomentam o consumo e a globalização, concorrem para a degradação ambiental e quais seriam as possíveis soluções para a crise ambiental.

            Ao trazer a discussão para o campo político e do modo de produção, Goldblatt iluminou o que se apresentou obscuro na leitura do capítulo 1: os aspectos inerentes do capitalismo que atuam para a degradação ambiental. Com isso, foi possível entender que a lógica do investimento-rendimento (sobretudo a partir do séc. XX) é, inexoravelmente, o motor da degradação ambiental e, ainda, estabelece a insustentabilidade do próprio sistema capitalista. Este, tendo em vista a necessidade de produção, consumo e rendimento altos, permanece em um estado denominado de crise, por Gorz e de negócios de rotina, por Goldblatt. O capitalismo, seria, então, um estado de constante tensão.

            Foi, ainda, esclarecedor, observar as estratégias adotadas pelos estados socialdemocratas e socialistas para lidar com a tensão capitalista. Enquanto países socialdemocratas buscam regular o mercado, países socialistas buscaram extingui-lo (obviamente, sem sucesso).

          Entretanto, mesmo Goldblatt demonstrando a causa que estabelece o capitalismo como motor da degradação ambiental, tanto as soluções apresentadas por Gorz, como as de Golblatt, requerem uma transformação política e social com dimensões revolucionárias. Porém, as estratégias estabelecidas pelos dois autores parecem muito aquém dessa necessidade.

          Segundo Goldblatt, Gorz advoga que a resolução para a crise capitalista, força propulsora da degradação ambiental, reside no rompimento do

[…] equilíbrio entre ‘mais’ e ‘melhor’, remodelando assim a racionalidade da economia para conseguir a separação conceptual [sic] e social do direito a um rendimento que advém da obrigação de trabalhar, e um equilíbrio de riqueza e bem-estar com o aumento dos tempos livres em vez do aumento do rendimento material. (p.132)

        Goldblatt analisa essa proposta e tece duras críticas a sua concepção vaga, o que parece correto. Porém, como alternativa a esta, apresenta:

        A política, face à degradação do ambiente, só pode escolher o menor de dois males […] o dilema político principal para a política de ambiente é controlar o capitalismo do ponto de vista social e ecológico. (p. 157)

        O autor ainda observa que “[…] a tarefa da política de ambiente deverá, ser, de momento, encontrar o modo como viver com o capitalismo” (p.157)

         Goldblatt chega a essa conclusão após apresentar ao leitor a lógica por trás da ação política de estado e estabelecer que qualquer política ambiental só se dá dentro dessa lógica e, assim, a degradação ambiental só pode ser limitada se for possível “ganhar e manter o poder político” (p.156). De modo que sua solução seria estratégica, conforme as conjunturas.

        Na conjuntura brasileira, por exemplo, as estratégias do estado para enfrentar a crise rotineira do capitalismo se assemelha a adotada por uma social-democracia, com o estímulo ao consumo, redução de impostos, embora haja esforços para que se dê a distribuição de renda. Porém, conforme Gorz teorizou, aprofundam-se problemas de acumulação individual sem que se resolvam o prejuízo social e a degradação ambiental. Com base no pensamento de Goldblatt, no contexto brasileiro, a resolução para o prejuízo social e a degradação ambiental inerentes ao capitalismo no Brasil passaria pela conquista de poder político, por meio da conscientização do consumidor, o que alteraria a opinião pública para que as tecnologias e políticas de estado considerassem os custos ambientais. Isso com base na visão de Goldblatt de que os impactos ambientais são construções sociais e dependem da visão da população para serem custeados (sempre apresentada como consumidor, o que enfatiza o predomínio do mercado no mundo moderno).

       Porém, tanto a perspectiva de conscientização popular para a construção de uma sociedade pós-capitalista, apresentada por Gorz, como a perspectiva de Golblatt de conscientização popular para a construção de uma social-democracia de consenso entre mercado e ambiente, parecem ser inalcançáveis, frente a forte sedução da dinâmica capitalista junto ao indivíduo e a comunidade. Qual indivíduo está disposto a mudar? Qual indivíduo está disposto a conscientizar? Que comunidade está disposta a se posicionar? Que sistema político está disposto a se reinventar? Se o socialismo se apresentou como um “fracasso total” (p. 157) no âmbito econômico e social, como qualquer alternativa poderia ser vitoriosa dentro do capitalismo? Em que pese o apelo moral da consciência ambiental, o apelo do consumismo parece ser mais eficiente.

         Diante disso, a previsão mais coerente com o estado atual do sistema político global é colocação final de Goldblatt, que vaticina os altos custos que a humanidade arcará pela “falta de cautela e a exigência de crescimento” (p.163).

GOLDBLATT, D. A política ambiental do capitalismo. In: Teoria Social e Ambiente. Instituto Piaget: Lisboa, 1996. p. 117-168.

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