Publicado por: Lucila Brito | 09/08/2013

Da Lama ao Caos*

“Deixar que os fatos sejam fatos naturalmente, sem que sejam forjados para acontecer.
Deixar que os olhos vejam pequenos detalhes lentamente.
Deixar que as coisas que lhe circundam estejam sempre inertes, como móveis inofensivos, pra lhe servir quando for preciso, e nunca lhe causar danos morais, físicos ou psicológicos”
 
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“Mangue, mangue, mangue” – Baía da Traição/PB – 2011

Esses dias, conheci o Coletivo Fora do Eixo e me empolguei com um exercício de pensamento ecológico.

Acontece que, nesta semana, como desdobramento dos eventos de junho de 2013, enfim, o quarto poder entrou na pauta. Só que, a exemplo dos outros atores, o quarto poder não se manifestou de seu modo usual. Surgiu a Mídia Ninja.

A Mídia Ninja, meus queridos leitores imaginários, é um jogo em rede real. Temos o repórter com um celular ligado em uma rede social que permite a transmissão e a interação entre os espectadores e a ação, que ocorre ao vivo. Temos o repórter dialogando com os espectadores, os manifestantes, a mediação (OAB) e a força policial. Temos o repórter interferindo na ação, conforme o desenrolar e, daí, surge propriedades emergentes. É ativismo virtual. É, portanto, a coisa mais envolvente que poderia surgir para esta geração, como novas ferramentas atenderam gerações anteriores.

Quando a Mídia Ninja mostrou o seu potencial de quarto poder, não tardou para que se levantassem os questionamentos. Mas a quem serve esse poder? Um poder só é poder se está a serviço de alguém, não é? Em tese, a mídia deveria servir a verdade, mas pouca gente tem o pudor de tentar manter essa compostura, ainda. Então, a Mídia Ninja deveria servir a alguém.

Várias foram as hipóteses, até que se chegou a uma estrutura precária surgida do colapso da indústria musical, nos anos 90: o mercado cultural alternativo. Não é fascinante isso? No momento em que tudo que é sólido se desmancha no ar, no caminho, surge um filho bastardo da primeira leva da queda do capitalismo industrial (não entendo nada de Economia, estou só enfeitando a narrativa).

E, aparentemente, em um dos seus modelos mais produtivos na atualidade brasileira, a semente de uma Rizhophora mangle foi cultivada. Trata-se do Coletivo Fora do Eixo. Ninguém entende como funciona o modelo de negócio desse tal “coletivo” e muitas críticas chovem, em textos que, logo, logo, atingem todos os volumes de O Capital. Bem oportunas, mas, não há como não observar que tais críticas servem muito aos dinossauros da indústria midiática que lutam contra os sistemas esquisitos que se expande pelas periferias dos Brasis.

Como ninguém entende o que está acontecendo, eu me sinto muito a vontade em apresentar meu exercício ecológico para o “modelo de negócio” Fora do Eixo. Adianto que não é uma defesa, não sei se o modelo deles é legal ou ilegal, justo ou injusto, eficiente ou ineficiente, eficaz ou ineficaz… Mas gostaria de entendê-lo, antes de abortar a criatura. Nós biólogos somos assim: não importa o quão feio seja o bicho, é sempre fascinante tentar entender como ele vive.

Bom o que assimilei da entrevista que os porta-vozes (Messias? Poderosos chefões?) deram ao Roda Viva  é que o Fora do Eixo é uma cooperativa cultural difusa pelo Brasil. As diversas estações realizam trocas culturais com a comunidade em que estão inseridas, sejam apresentações musicais, de cinema, de dança, etc. Esses eventos de troca são impulsionados por uma rede de informação: textos, cartazes, flyers, teasers, clips, twitters e postagens em geral nas redes virtuais. Claro, isso é um sistema aberto, que precisa de entradas de energia para funcionar que, no modelo econômico atual, são os eventos culturais em si.

O capitalismo, sistema econômico hegemônico, traduz a energia de seus sistemas em dinheiro que, invariavelmente, é acumulado e desigualmente distribuído. O que resultaria de energia acumulada e, mais, mal distribuída? É por isso que os castelos desmoronam mundo a fora, em minha opinião de bióloga ingênua.

O que eu vi no modelo Fora do Eixo foi que parece que essa energia circularia sem se acumular nas estações, mas em estoques, que eles chamam de bancos. Esses estoques fomentariam o pró-labore dos trabalhadores, a manutenção do coletivo, a produção dos eventos e novos projetos político-sociais, como o Mídia Ninja.

Mas há uma peculiaridade no modelo Fora do Eixo: as atrações artísticas seriam jovens (assim como os trabalhadores que produz a informação), sem experiência e sem público. Então, como gerariam os recursos necessários para manter toda essa estrutura? Aí é que entra a necessidade de captação de subsídios externos, governamentais.

E é aí que o Fora do Eixo parece se diferenciar de outros atores do mercado de cultura alternativo. O Coletivo parece ter muita habilidade nessa tarefa, captando muitos recursos e investido na manutenção de todo o sistema Fora do Eixo.

Para mim, o modelo Fora do Eixo é um modelo muito semelhante ao ecossistema mangue. Estes, são ecossistemas naturais limítrofes que dependem de energia solar, com subsídios de outras fontes naturais de energia, no caso, as marés, as ondas e as correntes fluviais (1). Essa energia se encarrega de fazer circular minerais, nutrientes e resíduos, de modo que os organismos ali presentes concentram seu trabalho na conversão de energia em matéria orgânica. São, portanto, bem mais produtivos, porque o custo de manutenção de um espécime é reduzido. Nas palavras de Odum, “os organismos do estuário estão adaptados para usar a energia de marés”, em sua rede modesta e diligente.

"Um curupira já tem o seu tênis importado/ Não conseguimos acompanhar o motor da história" - Sagi/RN - 2007

“Um curupira já tem o seu tênis importado/
Não conseguimos acompanhar o motor da história” – Sagi/RN – 2007

Os mangues são berçários, já ouviram falar? Lá, vivem muitos estágios primários de vida, inclusive, de grandes animais marinhos. Lá, não existem grandes predadores, que consumiriam esse grande aporte de energia rapidamente, o que tornaria despropositado esse subsídio externo. Há pequenos animais e microorganismos, que, em sua grande produtividade, nutrem ecossistemas externos, maduros e maiores.

Mas é facilmente perturbável, sobretudo, se algo altera o subsídio de energia que os mantém.

Por isso, acho que o modelo Fora do Eixo funcionaria como um mangue, um berçário do mercado de serviços brasileiro, em que microrganismos e pequenos animais interagiriam para manutenção de uma estrutura que mantém a eles e a outros modelos de negócio com os quais se comunicam.

Mas, claro, não somos bactérias ou caranguejos e estamos habituados com o sistema de acumulação de capital e lucro, mesmo que este mesmo nos exclua. Queremos o reconhecimento de nosso trabalho, porque já não somos mais apenas larvinhas. Talvez nunca tenhamos sido, mas achamos o modelo instigante e fomos pisar com nossos pés consumistas na lama mal cheirosa do mangue. Seja porque crescemos ou porque percebemos que nos enganamos de habitat, vamos completar a nossa ontogenia em outras águas, com a fertilidade que o mangue Fora do Eixo nos proporcionou.

"Ninguém foge a vida suja dos dias da Manguetown" - Manguetown, no inconsciente coletivo da geração manguebeat, que Pedro Alexandre Sanches falou.

“Ninguém foge a vida suja dos dias da Manguetown” – Manguetown, no inconsciente coletivo da geração manguebeat, que o jornalista falou**.

* Esta postagem tem trilha sonora: http://www.vagalume.com.br/chico-science-nacao-zumbi/discografia/afrociberdelia.html

**

(1) Odum, E.P. Ecologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988.

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Responses

  1. Republicou isso em Fingindo Paciência.


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