Publicado por: Lucila Brito | 23/08/2013

O Desamor, a Crítica e o Sansevieria

Acho que mudarei o nome deste blog para “O Que Uma Bióloga Acha Sobre As Polêmicas Que Lê No Twitter”. Porque toda vez que aperto o passarinho virtual no celular, assisto uma batalha campal diferente.

Ontem, a questão era feministas versus um rap. Demorei a entender porque sigo uma única feminista militante virtual, que está atarefada com sua vida real. Na verdade, geralmente, elejo um representante de cada interesse meu para seguir e, eventualmente, acabo ficando a par das pautas de todos os assuntos, porque o twitter é bem repetitivo.

Foi assim, que o representante do tópico “cultura” trouxe a polêmica da canção “Trepadeira”, do novo álbum do rapper Emicida. Tentei participar da discussão, mas o meu comentário foi censurado nesta coluna e ignorado neste artigo. Assim, minha vontade de dar pitaco foi frustrada. A canção traz uma diversidade de metáforas com flores, então, pensei em superar esse trauma trazendo o assunto para este incrível espaço de angiospermas. E cá estou eu, em mais uma fugida ao tema deste blog.

Em resumo, a canção conta a desventura amorosa de um rapaz que, enamorado de uma moçoila exuberante, vê seu sentimento amargar no falatório alheio a respeito dos hábitos libertinos de sua amada. A amargura é grande e, lá pelas tantas, com o coração partido, os pensamentos do rapaz entram, com cores violentas, em fantasias sobre desforra mística.

Acontece que as moças feministas não gostaram. E não entenderam a referência a religiões afro-brasileiras. Mas, como todos sabemos, a Etnobotânica está aí para resolver esses assuntos, mesmo.

Isso porque o trecho mais polêmico da canção diz o seguinte:

“E tu vem, meu coração parte e grita assim:

ARRASA BI…SCATE!!!

Merece era uma surra de espada de São Jorge,

um chá de comigo ninguém pode.

(É, eu vou botar teu nome na macumba viu?! se segura!)”

As feministas interpretaram como uma alusão a agressão física. Sei, o discurso é ambíguo, mas a realidade é ambígua, também. Eu mesma achei se tratar, a primeira vista, de uma metáfora sexual… Freud explica. Mas, talvez, com um pouco mais de interesse em conhecer outras visões de mundo, nossa leitura possa ser mais proveitosa. E, até, mais rica que a do letrista, com o perdão da pretensão.

Espada de São Jorge e Comigo-Ninguém-Pode são plantas herbáceas. E podem ser usadas em rituais de religiões afro-brasileiras, ou, mesmo, na cultura popular, para fins de purificação. Não sei vocês, mas eu acho que um amante pretensamente traído não teria pudor nenhum de usar uma crença para se curar de seu ex-amor. E, isso, não é machismo. É dor de cotovelo, mesmo.

Se houve uma alusão à violência física, a própria canção tratou de desfazer a ambiguidade, com uma citação de um samba de Zeca Pagodinho (“É, eu vou botar teu nome na macumba viu?! se segura!“”). Não nos custa fazer a leitura por inteiro, a não ser que não queiramos isso, mesmo.

Se há ódio no discurso do rapaz, não é se afastando do conflito que isso irá mudar. Oxalá que todas as entidades nos livrem de uma arte panfletária, ausente de conflitos!

Houve, ainda, crítica a forma depreciativa que uma mulher com hábitos poligâmicos estaria sendo apresentada, como no refrão, por exemplo:

“Você era o cravo e ela era a rosa,

e cá entre nós, gatinha, quem não fica bravo

dando sol e água, e vendo brotar erva daninha.

Chamei de banquete era fim de feira,

estendi tapete mas ela é rueira.

Dei todo amor, tratei como flor,

mas no fim era uma trepadeira.”

As feministas da internet argumentam que esse trecho reflete a visão misógina do patriarcado, dando conotação negativa aos hábitos sexuais da moça preterida. E reflete isso, mesmo. Mas isso gera alguma empatia?

Ouvi a canção algumas vezes (e, confesso, cada vez gosto mais), mas, desde a primeira audição, simpatizei com a moça, não com o rapaz.

A moça, com o mundo gritando “arrasa, bi!”, parece linda, livre e confiante. O rapaz, com seu vício por vigiar, sua atenção exagerada à falação dos manos e da mamãe e seu desejo por uma Madre Teresa, só deu a impressão de ciumento, inseguro e falso cristão, que, ao se desencantar, parte da fantasia de casamento católico para a de colocar o nome da nega na macumba.

Não quero diminuir a causa, mas acho que essa é só mais uma canção de desamor da MPB. E das boas, minhas companheiras. Até para a luta feminista. Temos um “corno” salgueiro-chorão, e uma “biscate” florescida.

Para terminar, alguns exemplos de rapazes imaturos desencantados, agora, pelas mãos de Chico Buarque, a quem, pelo que li no twitter, as feministas de lá  amam idolatrar, assim como eu.

“Ah, Rosa, e o meu projeto de vida?

Bandida, cadê minha estrela guia?

Vadia, me esquece na noite escura

Mas jura

Me jura que um dia volta pra casa”

A Rosa

“Você só dança com ele

E diz que é sem compromisso

É bom acabar com isso

Não sou nenhum pai-joão

Quem trouxe você fui eu

Não faça papel de louca

Prá não haver bate-boca dentro do salão

Sem Compromisso*

 “A Rita matou nosso amor

De vingança

Nem herança deixou

Não levou um tostão

Porque não tinha não

A Rita

 

“Aliás,

Aceite uma ajuda do seu futuro amor

Pro aluguel

Devolva o Neruda que você me tomou

E nunca leu”

Trocando em Miúdos

* Canção de Geraldo Pereira e Nelson Trigueiro, famosa na interpretação de Chico Buarque.

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Responses

  1. A analogia de emicida não tem relação com o camdomblé, com a umbanda, ou com metáforas da biologia. Ele foi claro, ao usar seu principal tema como trepadeira, e costurar no seu entorno a letra. O problema não é somente a apologia a violência física, mas a violência psicológica que o discurso carrega, Emicida perdeu ponto com o movimento feminista negro, que era seu defensor mesmo que esse se carregasse de discursos moralistas como monogamia, e o próprio discurso anti álcool. Mas ele vacilou.

  2. Republicou isso em Fingindo Paciência.


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