Publicado por: Lucila Brito | 05/07/2013

João e o Pé de Feijão

Parem de subestimar o povo - revistas da semana de 16 a 21 de junho de 2013.

Parem de subestimar o povo – revistas da semana de 16 a 21 de junho de 2013.

Mais uma vez, saio do tema deste espaço. Mas é que as coisas esquentaram no último mês no Brasil. Esquentaram, mesmo, com direito a bombas, molotov e spray de pimenta.

Tudo começou por conta de vinte centavos, com manifestações do Movimento Passe Livre de São Paulo. Todos já conheciam o grupo no país, que sempre faz  manifestações pelas capitais quando as tarifas sobem. Em São Paulo, li que já haviam se acorrentado a catracas, em outra ocasião de aumento de tarifas. Já chegaram a conseguir baixar tarifas em Teresina e em Natal, também. Em Natal, evoluiu e é tão organizado que contribuiu para a derrubada da prefeita Micarla.

Mas, aparentemente, o poder público paulista desconhecia a tenacidade dos meninos. E, o governo federal, subestimou a capacidade dessa tenacidade vir a impactar a mídia. Deve ter pensado: mesmo sendo a prefeitura petista da principal capital do país, nunca que a grande mídia irá se colocar ao lado de manifestantes que confrontam os interesses de um setores que tem os principais financiadores de campanhas no Brasil, que são as empresas de transporte público.

A mídia não estava muito aí, mesmo, não. Mas há o fator redes sociais e, quando a mídia percebeu a capacidade de mobilização desse fator, foi, como dizia o TV Pirata, nitroglicerina pura. E, o governo federal foi o principal atingido.

Desculpem-me, mas foi bem feito. O governo tem ignorado demandas sociais que, historicamente, esteve ao lado, para agradar a mídia e “azelite”… Parece que não aprendeu que nunca foi a mídia o canal de comunicação com o governo, e, sim, a relação direta como o povo organizado. A parcela popular doutrinada pela mídia sempre o será ou irá tomar uma decisão de última hora, nas eleições, depois de conversar com amigos, o chefe, colegas de trabalho, cônjuge, amante, namorado… Todos esses podem ser ou ter simpatia pelos movimentos sociais organizados e são esses que irão fazer a diferença nas eleições. Não tem para que ignorar o povo e prestar continência a elite no meio do mandato. É eleitoreiro demais e, mesmo quem entende que há mais interesses envolvidos do que supõe nossa vã filosofia, fica possesso da vida… Quer dizer que, na hora do “vamos ver” o que o povo organizado recebe é balada de borracha e pimenta nos olhos?!

Bom, o resultado foi um babado fortíssimo: micareta cívica nas ruas, loucos de direita nacionalista e/ou militarista cooptando os eventos do facebook criados para divulgar as micaretas cívicas, movimentos organizados expulsos destas para não haver oportunismo partidário (?!), oposição de esquerda aproveitando para gritar mais alto os descasos do governo, oposição de direita fabricando bolinhas de papel tamanho GG adoidado para capitalizar nas eleições, Globo transmitindo non stop as manifestações e a quebradeira – no Bom Dia Brasil, na Ana Maria Braga, no programa de bem-estar para as donas de casa, na sala de estar de Fátima Bernardes, no Jornal Hoje, no Jornal Nacional e por aí foi… Loucura, loucura, loucura!

Os governistas que eu acompanho no twitter ficaram desorientados: é golpe! é eleição! sai da rua, meu povo! Eu fiquei doidona, também, até cogitei pegar a primeira balsa para Cuba, mas de jeito nenhum achei ruim o povo na rua, mesmo que para uma micareta cívica. Acho que já era hora de haver, sim, o confronto de posicionamentos e interesses. E é o que está havendo no Brasil. E, mais, acho que esse é o primeiro passo para superar a cordialidade nociva que atrasa o país.

Ainda não acabou tudo isso, mas acho que o governo Dilma está usando uma boa estratégia, mesmo que o povo a ignore. Está aproveitando as manifestações para desengavetar temas espinhosos, que “azelite” e sua base aliada amiga-da-onça nunca permitiram o encaminhamento e, mensalão, claro, está fora de cogitação, desde de 2005, que foi, até agora, a única estratégia que permitiu a aprovação de reformas estruturais. Horrorizem-se o quanto quiserem.

Não sei dizer se, eleitoralmente, o PT sairá vitorioso, mas foi um risco que o Governo Federal correu ao optar por ignorar as críticas de esquerda, fiar-se nas pesquisas e ninar a direita. Claro, é um risco que ele correu e que todos nós poderemos sofrer as consequências. Mas, o que o povo poderia fazer? É só eleitor, no atual sistema político do Brasil.

Acompanho muito política no twitter. Cansei de só ver elogios de governista às ações do governo, brigas entre criaturinhas (é assim que chamo as pessoas no twitter, porque ficam falando sem parar dentro do meu celular, como seres imaginários) pró e contra governo e visões uni direcionadas. Se o Governo Federal usa o twitter para acompanhar a opinião pública, foi essa a causa da surdez.

Eu sou adepta a jogar conversa fora. Converso com garçom, taxista, atendente de supermercado, aposentado na fila do banco, velhinho na padaria… Costumava conversar com chefes e colegas de trabalho, para saber a opinião, mesmo. Pessoas entre 40 e 70 anos, de capitais nordestinas, nicho petista, sim, não há vergonha em admitir isso. Essas pessoas não são antiquadas. Viveram momentos na história do Brasil muito mais críticos do que o que vivíamos até maio de 2013. Essas pessoas entendem como se dá a política e porque votaram no Lula e, por causa dele, na Dilma. Essas pessoas não irão defender com unhas e dentes o governo, mas querem o governo as defenda. Como permanecer ao lado de um governo indiferente?

Há um jornalista que sigo no twitter, petista fervoroso, que dá piti sempre que vê algum governista criticando demais as decisões ou posições do governo Dilma. Diz que os governistas querem colo de Dilma. Defende aquela história de manter a unidade. Não tanto por ele, que esteve nas manifestações desde o início, mesmo a esmagadora maioria governista se dedicando a desqualifica-las, mas foi essa unidade em momento desnecessário que ensurdeceu o Governo Federal.

Agora, Dilma precisa ouvir bem e, caso as criaturinhas governistas do twitter sejam os ouvidos de Dilma, é melhor comprar cotonetes. Mas, olha, o gigante fala alto, viu?

Publicado por: Lucila Brito | 01/07/2013

Terra em Transe

Manifestação Passe Livre - 20/06/13 - João Pessoa/PB

Manifestação Passe Livre no Parque Sólon de Lucena – 20/06/13, João Pessoa/PB

Volto, mas com a liberdade de tratar de um outro tema, tangencial ao Meio Ambiente, porque o Brasil está em transe. Um transe político que antecipou as eleições. E, se há uma coisa que gosto mais de falar do que sobre plantas é sobre política.

Não quem vence ou perde. Meu interesse em política é tão estratégico como o dos políticos. Os atores da política em evidência, leia-se oposição e situação, ao contrário do que nos querem passar, não estão lá muito interessados em garantir o poder ao povo. O poder na acepção do bem estar social, dos recursos e das reservas. Todas essas questões são secundárias na luta pelo controle desse poder. O poder do povo equivale a vinte centavos, na política brasileira. A situação e a oposição se preocupam apenas em como isso pode lhes render e a quem os financia, em todas as esferas. Essa é realidade da política brasileira. Na concordo com ela, mas não a ignoro.

E, a exemplo dos políticos, eu tento tirar proveito dessa realidade. No meu caso, como povo. O político quer manter o teatro de que está a serviço do povo. Eu, povo, quero pagar para ver. Quer meu voto? Querem controlar o poder do país? Então, preparem-se para a cobrança  das promessas do teatro montado na campanha eleitoral. Não gostaria de ter de me dizer exemplo para ninguém, mas se o povo seguisse um pouco mais o meu modus operandi político no Brasil, as coisas seriam bem menos cínicas na política.

Digo isso porque, hoje, o povo brasileiro comemora conquistas que, se fossem cogitadas há um mês, qualquer um diria ser piada.. A aprovação no Senado do Projeto de Lei que torna corrupção um crime hediondo é uma delas. Mas, as mais representativas conquistas populares são relativas à questão do transporte público. Quedas nas tarifas pipocam por todo o país. Nas principais capitais, as planilhas de transporte público começam a ser questionadas. CPI’s para investigação dos desmandos na execução desse serviço são cogitadas.

E o que dizer da reforma política na pauta do Congresso? Isso era um sonho pessoal meu há anos e só isso poderia mudar minha estratégia na política brasileira. Nada de dinheiro privado nas campanhas. Qualquer pessoa que tenha atuado em uma estatal tem claro que o Estado é privado e, tudo o que se faz para o público, passa pelo aval do privado. Tudo isso é consequência direta do dinheiro que financia as campanhas. E, sim, as empresas de transporte público se beneficiam demais desse mutualismo que parasita o Estado.

As conquistas da última semana foram catalisadas pela presença do povo na rua. Situação e oposição querem garantir os milhões de votos do gigante que acordou. O povo até tem consciência disso, mas, por tanto tempo de letargia, iguala a resposta da situação e da oposição. O povo parece não saber que todas as conquistas que iniciaram na última semana estavam em muitas gavetas do Congresso, das Câmaras municipais, nas governadorias, nas prefeituras… Embora todas já tivessem engatilhadas, muitas pela situação no governo federal. Sim, o PT.

Um exemplo? Na última semana a Câmara federal aprovou Projeto de Lei – PL que destina 75% dos royalties do petróleo para educação, 25% para a saúde e mais 50% do Fundo Social para a educação. No final de 2012, esse PL, apresentado pelo Governo Federal com algumas diferenças do atual, foi pauta no Congresso e sofreu derrota monumental, com total silêncio do povo brasileiro. O mesmo povo que, agora, saiu às ruas exigindo saúde e educação. O que mudou de lá para cá? O Governo tem a mesma base aliada e a mesma oposição na Câmara que tinha no final de 2012. O que mudou foi o povo na rua. Não digo que o povo precise estar sempre na rua, mas não pode se omitir. Não pode votar e deixar correr.

Não é possível, também, instalar-se na arquibancada e torcer pela oposição ou situação por quatro anos. Veja bem, o voto, na atual forma que a política se dá no Brasil (e, por isso, sonho com a reforma política), é estratégico. Não há ideologia para se defender no partido que venceu as eleições. Há ações a se cobrar. Quem chegou ao governo, dentro do atual sistema político, teve de se adequar as regras do jogo. E, estas, em nada tem a premissa de poder para o povo. Nestas, só cabe o mutualismo entre o poder público e o poder privado. Qualquer conquista do povo é troco, no atual sistema.

Mas há como, no atual sistema político, reduzir a tarifa do jogo de interesses e aumentar o troco para o povo. E, não, não é demonizando a situação ou fechando os olhos para os interesses da oposição. É sendo a camisa 13. O povo é a variável nessa equação. E, a depender de seu valor, é quem determina se os maiores ganhos serão para a corrupção ou para a democracia.

Mesmo assim, há quem tente jogar a carta da ideologia na cena política atual. Não me entendam mal, sou mulher, negra, nordestina e de origem humilde. Sou, portanto, fatalmente, de esquerda. Tive acesso a muita literatura e leitura de atualidades e estou convencida que, para a democracia brasileira se iniciar, em função da gritante desigualdade socioeconômica do país, só pelo caminho da esquerda. Talvez algum dia, quando tudo estiver equilibrado no país, possa-se pensar em um ideário no qual o liberalismo econômico e o conservadorismo social possam ser discutidos sem implicar em risco a democracia. Mas estamos bem longe disso. Assim como estamos, também, longe de uma política ideológica.

A parte minha utopia de esquerda, não me animo com partidos que se apressam na defesa dessa visão política, ou criam novas denominações, para se colocar no jogo eleitoral. Tudo está submerso aos interesses eleitorais, os quais, por sua vez, estão submetidos aos interesses privados. Não questiono partidos como o PSTU e o PSOL, partidos de esquerda, sem expressão no Executivo, mas cuja atuação nas diversas esferas do legislativo me faz considerar que contribuem para que a disputa política permaneça cumprindo um papel de luta social. Questiono, infelizmente, a Marina e sua Rede.

Palestra de Marina Silva na UFPB - 19/06/2013, João Pessoa/PB

Palestra de Marina Silva na UFPB – 19/06/2013, João Pessoa/PB

Marina Silva é um ícone para mim. Sua trajetória e sua atuação no Ministério de Meio Ambiente – MMA são exemplos a serem observados. Mas Marina tem essa obsessão pela presidência e segue uma leitura marqueteira sonsa que me deixa extremamente chateada, para não soltar um palavrão. A verdade que preferia Marina no Legislativo ou em uma secretaria de estado do que no Executivo, em qualquer esfera.

Marina segue uma orientação que sublinha o que é seu eleitorado esquerdista, ou sustentabilista progressista (como a ouvi se denominar em uma palestra): apartidário, jovem, internauta e politicamente moralista. Seu eleitorado não gosta de partidos, assim, Marina não deverá lançar um partido. Seu eleitorado é jovem, assim, Marina deverá aplaudir as inquietações dessa fase. Seu eleitorado é internauta, assim Marina deverá entender essa ferramenta e destacar seu impacto positivo na sociedade atual. Seu eleitorado é politicamente moralista e, por isso, Marina não se alia a qualquer aliado do atual Governo Federal, que tem o rótulo midiático de partido mais corrupto da história deste país, a não ser que estes tenham sido ou venham a ser preteridos pelo PT.

Mas a candidatura de Marina segue a mesma cartilha das demais candidaturas brasileiras: baseia-se em um perfil do eleitorado, apoia-se em poderio econômico privado e é construída pela demonização dos opositores. É mais do mesmo. A Rede de Marina é tão bem construída em termos estratégicos que não achei sequer um artigo que estabeleça uma análise sobre a estratégia de comunicação/marketing da Rede, pude apenas subentender desses textos que li. Claro, há artigos partidários críticos, mas que não expõem a estratégia de comunicação que sublinha o projeto da Rede.

Palestra de Marina Silva na UFPB - 19/06/2013, João Pessoa/PB

Palestra de Marina Silva na UFPB – 19/06/2013, João Pessoa/PB

Assim, todo o discurso da Rede de Marina é chamado, na gestão ambiental empresarial, de maquiagem verde. Marina presidenciável entende tudo, está na fronteira da sustentabilidade e não é como nada disso que está aí. Mas o que essa Marina irá fazer? Li uma entrevista dela esses dias e me encabulei com a capacidade que tinha em explicar o que está acontecendo no país agora, em dizer o que Estado está fazendo de errado agora e em não dizer nada sobre o que acha que deva ser feito, porque tudo é uma construção coletiva que-ouve-e-fala-ouve-mais-depois-fala-mais-em-um-moto-contínuo-infinito-e-despropositado. Por que cargas d’água isso seria diferente do que aí está? Desculpem-me, desculpo-me a mim, Bióloga, mas não é.

Ao acompanhar uma palestra ministrada por Marina Silva no último dia 19, na UFPB, senti que não há porque me recriminar em admira-la. Marina tem muito a contribuir nas discussões sobre sustentabilidade, nas questões de ativismo, representação e atuação política. Então, prefiro Marina Silva no Congresso, na ONU, em uma secretaria de Estado, são nesses fóruns que a representatividade popular se dá. Pode ser que, algum dia, haja uma nova forma de se fazer democracia, mas não me parece nada com o que a Rede propõe. Melhor Marina ativa e de fronteira nas velhas cadeiras do que nessa democracia verborrágica da sua Rede, desejando a presidência, tal qual um Gollun verde.

A mim, como povo, Marina presidenciável não serve de nada. E não entra no meu jogo.

Publicado por: Lucila Brito | 27/01/2013

O Brejo de Luciana

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É um centro de ecoturismo, é uma cooperativa e a entrada para a Reserva Ecológica da Mata do Pau Ferro.

Partimos, meu esposo e eu, rumo ao interior da Paraíba, com destino ao Planalto da Borborema. Mais precisamente, para o município de Areia. Situado a cerca de 600m de altitude, patrimônio cultural brasileiro, sede de um campus da UFPB e local de uma ecorregião tipicamente nordestina, a Floresta de Brejos de Altitude, pareceu-me um destino perfeito para começar a conhecer o estado.

Comecei o roteiro arrastando meu esposo para uma trilha na Reserva Ecológica Mata do Pau Ferro. Não que ele não goste de programas do gênero. É mais afeito a estes que eu, na verdade. Mas, tinha a obrigação de seguir meu planejamento milimétrico. E estávamos atrasados.

Pau Ferro e artesanato de bananeira das mulheres do Chão de Jardim.

Lá, fomos recebidos por uma moça muito simpática e solícita, que se ocupava de atender os visitantes no quiosque dedicado a expor o trabalho de artesanato em palha de bananeira, manufaturado pelas mulheres da Comunidade Chão de Jardim. Prometeu arranjar um guia, mas, não dispondo de ninguém para nos acompanhar na empreitada, foi, ela mesma, realizar o trabalho de nos guiar pela trilha mais curta, a Trilha das Flores, com 2Km de extensão. Não se engane com essa distância, o percurso circular começa com um declive e termina numa senhora subida, boa para testar pulmões sedentários habituados ao nível do mar.

Luciana Balbino – esse era o nome da moça, começou informando que as trilhas, geralmente, são feitas por escolas, e que, na preparação para as trilhas, ela contextualizava para a turma os aspectos tratados em sala de aula. Então, apresentava os líquens, as orelhas-de-pau, epífitas, etc. A nós, Luciana também informou sobre como surgiu a mata do pau-ferro, que é uma mata secundária, surgida após circunstâncias políticas e socioambientais paraibanas na década de 30, que levou a desapropriação de engenhos naquela região, o que favoreceu a retomada da área pela vegetação nativa. Luciana, ainda, informou-nos dos vestígios de engenho dentro da mata, representados por ruínas de fundação das instalações destes e pela presença de árvores frutíferas, como a macaíba. E, por fim, Luciana nos contou toda a representatividade da cidade de Areia no contexto sócio-político, econômica e cultural da Paraíba e como a Floresta de Brejos de Altitude teve importância nessa história.

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Acrocomia intumescens – a popular, principalmente, em Areia/PB, macaíba.

Luciana nos contou tudo isso sem um texto prévio. E sem perder o fôlego na subida da trilha. Ela apenas respondia nossas perguntas sobre a ação da universidade na reserva, sobre o surgimento da reserva, sobre as comunidades negras na região, sobre a ação do estado na reserva e junto à população tradicional da Mata do Pau Ferro. Luciana é historiadora, nascida na região de Areia e apaixonada pelo Brejo Paraibano.

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Um abraço pra ti, Luciana.

Em um momento de pausa para que nós, visitantes, recuperássemos o fôlego, elogiei a capacidade de Luciana em dar uma aula transversal. Fiz sem saber que Luciana ganhou, em 2009, o Prêmio Margarida Maria Alves, por seu trabalho nessa área e junto às mulheres e jovens da Comunidade Chão de Jardim. Luciana citou isso, depois, casualmente, quando nos contava a história de Margarida Alves.

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Memorial à Margarida Maria Alves, em Alagoa Grande/PB.

Casualmente, também, chamou a atenção de caçadores que cruzamos na trilha e criticou a ausência de extensão universitária e fiscalização do estado na Reserva. Mas, calorosamente, chamou-nos para tomar um suco de acerola, despediu-se e, logo, atravessou a estrada, para cuidar do andamento da fábrica de polpa de frutas da Comunidade Chão de Jardim, a Doce Jardim.

Foi isso que admiramos em Luciana. Admiramos, ainda mais, quando foi enfática e esperançosa em demonstrar a preocupação com a ausência do poder público na gestão da Reserva e no apoio às comunidades do brejo. O Governo Estadual criou a Reserva, deu casas à população tradicional, estabeleceu uma infra-estrutura de beneficiamento de castanha para garantir renda a esta, construiu guaritas e pontes… Mas, os deixou lá, sem supervisão, sem capacitação. Máquinas se deterioram, instalações foram depredadas, a polícia florestal não atua na área, a gestão governamental se dava a distância e a população desconhecia como gerir a Reserva e a instalação de beneficiamento. Mas, Luciana reconhece os esforços recentes de diversas instituições, tem esperanças nas ações previstas pelo governo do estado, e, acredita que será dada a devida importância às comunidades e a Reserva Ecológica Mata do Pau-Ferro, que, é provável, vem a ser o único remanescente de Floresta de Brejos de Altitude na Paraíba.

Sentados, no aclive de retorno, conversavam, dois educadores – Luciana e meu esposo, e eu, sobre a importância da contextualização do conhecimento para o aprendizado. Lembrávamos que muitos livros utilizam exemplos distantes de fauna e flora para educar nossos estudantes.

Bem, já estive do lado setor produtivo. Sei da necessidade de se explorar, mesmo que meu trabalho fosse para que se desse com sustentabilidade. E, por isso, compreendo muito mais a importância de se conservar. Entretanto, sem conhecimento, a conservação ambiental é, apenas, um slogan de governo, que pode acabar em quatro anos, ou menos.

O trabalho de Luciana, premiado e admirado por quem o conhece, grita que está na hora de se colocar o brejo, a caatinga, o Nordeste, como um todo, nos livros. Para que todos saibam o que se pode perder e, como se pode usufruir. Digo isso, porque ficou na minha cabeça o que disse Luciana Balbino, na subida da Trilha das Flores: o estudante pensa que o Brejo, a Floresta de Altitude, não tem importância, porque não está no livro.

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O Doce Jardim, demonstrando que o conhecimento transforma.

Publicado por: Lucila Brito | 27/12/2012

Flagelo Político

Conforme o prometido a vocês, queridos leitores imaginários, fui até o baobá do poeta, para poder lhes apresentar fotos com todas as fases de suas flores. Mas, não foi possível. Não havia flores. Talvez, as condições climáticas deste ano tenham alterado um pouco o período de floração especificado pelo poeta. Até agora, no ano de 2012, em Natal, tivemos uma média de precipitação de 69 mm e, nos últimos três meses, de 5,87mm. No ano de 2009, a precipitação foi bem mais positiva, com uma média anual de 182,3mm e, em 2010, no trimestre anterior aos registros feitos para este blog, em 2010, a média foi de 70,06mm (1).

Bom, escassez de chuvas é o que chamamos de seca. Causada, inicialmente, por padrões climáticos globais, a seca no Nordeste é sempre tratada com um flagelo, uma fatalidade, trágica como uma tsunami. Mas, não o deveria, porque é cíclica e, muito embora possa ocorrer com maior ou menor intensidade, está bem longe da imprevisibilidade. Acontece que o poder público gosta de pensar que é uma tragédia inesperada e inevitável e, que por isso, são necessárias sempre ações emergenciais que, forçosamente, necessitam da liberação de verbas astronômicas para remediar os danos. É a indústria da seca, a indústria do desastre, muito custosa para os cofres públicos e bem lucrativa para a máquina política nordestina. E, isso, sempre me deixe claro que o flagelo no Nordeste, não é a seca. É o jogo político.

A seca, ao nosso baobá, não causou mais do que, provavelmente, o atraso em sua floração. Mas, não posso deixar de dizer que o flagelo do jogo político atingiu o baobá da R. São José profundamente.

Não dirijo e estava muito bem acompanhada de mim mesma na tarde do dia seguinte ao Natal. Então, peguei um ônibus, desci a altura do antigo Hotel Tirol e segui pela Av. Alexandrino de Alencar, a pé, em direção a R. São José. O calor senegalês do verão que se iniciou na sexta-feira da semana passada quase não me incomodou, porque é um trecho bem arborizado e com uma brisa generosamente canalizada pelo Parque das Dunas. Digo quase porque em todos os canteiros, calçadas, praças e esquinas se acumulavam dezenas de sacolas cheias de lixo, cuja decomposição, catalisada pelo calor, fizeram do trecho um curtume a céu aberto.

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Calçada do baobá do poeta.

E, quando cheguei ao baobá do poeta, a situação era igualmente desoladora. Toda a calçada que conduz à árvore estava tomada por lixo, entulho, restos… Sacolas, caixas e latas levadas pelo vento encontravam abrigo aos pés da célebre planta. Essa situação é manchete jornalística há tempos, mas, as causas, poucos veículos se atrevem a discutir.

Não é porque é Natal. A cidade está nessa situação há quatro anos, depois que um governo de propaganda ambientalista foi eleito pela maioria absoluta do eleitorado, apoiado por lideranças políticas e figuras da Academia. Figuras que não levaram em consideração o histórico da candidata, de seus aliados e de sua família política, mas, apenas, o discurso ambientalista do partido. Uma posição ingênua, diga-se de passagem, que à época, muito me aborreceu.

Hoje, deixa-me muito triste. Comparem as imagens de dois anos atrás que ilustram o post anterior… Ver canteiros, praças e monumentos naturais depredados, lixo às montanhas por todos os cantos deixa claro que uma gestão que não pôde dar conta do básico das obrigações da municipalidade não pode ter agido com competência e respeito maior frente às questões mais complexas de governo.

Deficiência na limpeza pública deixou assim o pé do baobá.

Deficiência na limpeza pública deixou assim o pé do baobá.

Coleta de lixo irregular deixou este monumento natural da cidade neste estado.

Coleta de lixo irregular deixou este monumento natural da cidade neste estado.

E esse tipo de governo não é exceção no Nordeste. Esse tipo de governo é que permite que um fenômeno climático natural seja um flagelo, sem sequer se preocupar com o cheiro que exala.

Foi isso que pensei enquanto olhava para o baobá, na semana de aniversário da cidade do Natal. Eu, que esperava sentir o cheiro desagradável das flores de baobá, acabei por sentir a podridão do jogo político, que não se envergonha em se expor pelas ruas de Natal.

O flagelo político em Natal.

O flagelo político em Natal.

(1) Agritempo – http://www.agritempo.gov.br

Publicado por: Lucila Brito | 19/12/2012

O Grande Príncipe

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Um pé de Adansonia digitata.

No RN, o baobá, em relação ao resto do Brasil, é, digamos, lugar-comum. Há baobás em várias localidades do estado. E, o de Natal, diz a lenda, é bem especial. Seu guardião, o poeta imortal Diógenes da Cunha Lima, sustenta que esse espécime, a cidade e o estado do RN como um todo, serviram de inspiração para O Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry. E, este, muito bem explicou, para muitos principezinhos pelo mundo a fora, que baobás não são arbustos. São árvores grandes como igrejas (1).

No livro, os baobás representam as pequenas preocupações, as praguinhas, que povoam nossos pensamentos e palavras e que, se não extirpadas cotidianamente, podem se tornar monstros colossais, letais para a nossa frágil essência. Isso porque os baobás d’O Pequeno Príncipe são grandes e numerosos demais para o planetinha B 612. Mas, na Terra, os baobás fazem justamente o contrário. Como todas as árvores, são ferramentas utilíssimas para a higiene mental e, assim, na manutenção da imaginação saudável da infância em qualquer adulto que delas se aproxime. O de Natal cumpre esse papel de maneira exemplar.

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O poeta do Baobá.

Árvore louvada em verso e prosa por literatos, visitada por figuras ilustres, incluindo o sobrinho de Saint-Exúpery, e pivô de mais uma das controvérsias norte-rio-grandenses, o Baobá da R. São José pertence à espécie Adansonia digitata, nativa do continente africano.

Estudos de Etnobotânica, como os do prof. John H. Rashford, dizem que os baobás e diversas outras plantas consideradas sagradas pelos povos africanos, foram trazidas para as Américas pelos negros traficados durante a colonização do continente. Esta, para mim, é uma clara expressão do que há de mais especial no espírito humano. Imagine você, tirado de seu ambiente, sob as condições que todos sabemos (ou, ao menos, deveríamos saber) e, sem saber para onde iria, ao chegar, plantar as sementes de uma árvore gigantesca, perene, sagrada… Aí reside a esperança de proteger seus descendentes.

Seriam os pertences de quem o baobá foi destinado a proteger?

Seriam os pertences de um dos descendentes que o baobá foi destinado a proteger?

Porque um baobá é gigantesco e milenar. O de Natal mede 18 metros de altura e tem 17,5m de circunferência e teria germinado há alguns séculos. Mas, em geral, essas árvores podem ser bem maiores que isso e datar de milhares de anos atrás. Isso tudo é bem mais impressionante por serem árvores características de clima árido. São, ainda, caducifólias, e têm uma interessante adaptação. A sobrevivência de vegetais em ambientes áridos pode ser garantida pela suculência, que é o acúmulo de água em raízes, folhas e, também, caule.

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Grande como uma igreja.

O caule do baobá é lenhoso, o popular tronco, e provido de um tecido fundamental especializado, o parênquima aquífero. Este, armazena água geleificada em suas células com grandes vacúolos e paredes muito finas e resistentes. São verdadeiras cisternas orgânicas. Essa reserva, coletada durante o período de chuvas, pode fornecer, em um único dia, até 400L de água para o baobá (2).

A biografia do baobá da R. São José seria mais ou menos assim: após muitos anos, germinou como uma eudicotiledônea, lutou para se desenvolver durante mais algumas dezenas de anos e, finalmente, quando se tornou maduro, entre uns longínquos meses de outubro e março, produziu suas intrigantes flores, que duraram um único dia, no qual mudaram de cor de brancas até roxas, e, bem, não cheiravam muito bem. As fotos que ilustram este post foram feitas em abril de 2010, já no fim da floração, e, não foi possível registrar nenhuma flor. Mas, irei à Natal, neste fim de ano e prometo montar acampamento em frente ao baobá do poeta, só, para, depois, tentar lhes mostrar as flores do baobá. Até lá, podem vê-las pelas lentes profissionais de um amigo do poeta.

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Esses pedúnculos sustetaram flores no final de 2009 e início de 2010.

As flores de um baobá são grandes, com cinco pétalas justapostas e monóicas, com numerosos estames rodeando o carpelo. O baobá da R. São José pode ser polinizado… Bem, pela ação de… Pássaros… Quem sabe, besouros, moscas, morcegos, mariposas?! Sabe-se lá que bichos são atraídos pelo cheirinho de carniça de suas flores!

Não vi nenhum estudo sobre a polinização do baobá da R. São José, mas, um pouco de conhecimento de Evolução pode dar algumas pistas. O tamanho, a cor inicial, a floração noturna (no ambiente natural) e, claro, o odor característico sugerem que os agentes polinizadores do baobá de Natal seriam besouros ou morcegos. Aliás, as plantas com flores, as angiospermas, são belos exemplos de co-evolução. As angiospermas primitivas se utilizavam do vento como agente polinizador. Porém, a descoberta do pólen como alimento pelos insetos foi, como dizer, uma revolução tecnológica da polinização. Pouco a pouco e, então, subidamente, a acerca de 40 milhões de anos, a evolução tratou de garantir que características de flores e insetos fossem selecionadas para a atração dos parceiros mais eficientes na polinização das flores e na nutrição dos insetos (3). Daí para os morcegos e pássaros, foi um pulo.

Os frutos surgidos após a polinização são, como poderíamos esperar, também grandes e ficam pendurados por um pedúnculo, lembrando ratinhos. Por isso, diz a Wikipédia, o baobá é, também, conhecido, como “árvore do rato morto”.

E essa vida de baobá, anualmente, repete-se. E bota repetição nisso… A estimativa é de que os baobás possam viver 2.000 anos (4). Os pesquisadores podem (e, frequentemente, o fazem) estimar a idade de uma planta com o emprego de um marcador radiativo, o Carbono 14.

Todos nós sabemos que todos os seres vivos são “filhos do carbono e do amoníaco”, não é? Pois bem, o carbono 14 tem uma meia via de cerca de 5.730 anos. Isso quer dizer que, por exemplo, 10g de carbono 14 leva 5.730 anos para se tornar 5g de carbono 14 e 5g de nitrogênio. Então, para estimar a idade de um baobá os pesquisadores medem a proporção de carbono 14 no espécime vivo. Assim foi descoberto que é um baobá da Namíbia a angiosperma mais antiga do mundo, com 1.275 anos. É ou não o príncipe das árvores com flores?

Do baobá da R. São José, não se sabe que idade tem, nem muito mais que isso. Sabe-se de uma estória, talvez história, de que é o baobá d’O Pequeno Príncipe. Por isso, as informações botânicas dessa árvore aqui apresentadas (espécie, dimensões, idade, floração, polinização, etc.) não são fruto de pesquisas científicas, porque na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações – BDTD, e mesmo em um Atlas Virtual de Botânica da UFRN, não consta nenhum registro de trabalhos realizados com esse príncipe potiguar.

Portanto, sigamos o conselho de Saint-Exupéry. Está mais que na hora das instituições de Ensino Siperior de Natal olharem para sua cidade, essa B 612, antes que pragas de verdade findem por destruí-la, sem deixar rastros.

Seria um bom presente para se deixar na árvore de Natal este ano, não? E, ainda, um bom desejo de fim de ano.

Imagem

Um espírito que habita o Baobá do Poeta.

(1) Saint-Exupéry, A. O Pequeno Príncipe. Tradução de Dom Marcos Barbosa. Rio de Janeiro: Agir, 2009.

(2) Dias, LG. Água nas Plantas. Monografia. UFLA. 2008. –  http://www.ceapdesign.com.br/pdf/monografias/monografia_agua_nas_plantas_lucia.pdf

(3) Raven P.H, Evert, R.F, Eichhorn, S.E. Biologia Vegetal. 6 ed. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan. 2001.

(4) Um pé de Quê – http://www.youtube.com/watch?v=GFm-Mu8_8mk; http://www.youtube.com/watch?v=XxZClCcrBoQ

Publicado por: Lucila Brito | 10/12/2012

Para o alto e avante

Elegantes Copernicia prunifera, tomando sol, na calçada do Centro de Turismo de Natal/RN.

Elegantes Copernicia prunifera, tomando sol, na calçada do Centro de Turismo de Natal/RN.

Reza a lenda da Wikipédia que o nome carnaúba vem do tupi karana’iwa, “árvore do caraná”. Porém, lá, a etimologia termina aí. Uma consulta ao oráculo maior (ó, Google, diga-me, o que vem a ser caraná?) informou que árvore de caraná vem a ser o mesmo que “árvore espinhosa”. Significados estes referendados por diversos trabalhos acadêmicos disponíveis na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações – BDTD. Assim, não poderia a própria Academia tirar da carnaúba o status de árvore. Então, aqui consta ela, em toda a sua exuberância, mesmo que não apresente o característico crescimento secundário das árvores.

No RN, a planta goza de tanta distinção que é representada na bandeira do Estado, ao lado de outras três espécies florísticas. Poder-se-ia, até, imaginar se tratar de um estado com rara consciência ecológica… Mas, generalizações nunca são muito inteligentes. Por isso, o que a bandeira do RN representa, mesmo, é o estado sob o ponto de vista natural, místico e sócioeconômico de um dos mais ilustres potiguares, o Sr. Luís da Câmara Cascudo.

Bandeira do RN, com a representação da carnáuba, à direita, conforme imaginou Câmara Cascudo.

Bandeira do RN, com a representação da carnáuba, à direita, conforme imaginou Câmara Cascudo.

Mas, tratemos, primeiramente, do assunto controverso que mancha a reputação de árvore da carnaúba: o seu crescimento.

A carnaúba é uma palmeira, da Família Arecaceae, surgida no final do Cretáceo. Anteriormente denominada Palmaceae, a nomenclatura dessa família botânica foi alterada pela International Association for Plant Taxonomy (Associação Internacional de Taxonomia Vegetal), em 2001. Sei que é um tema que tira o seu sono, ávido leitor, o fato de que é extremamente dinâmica a nomenclatura de plantas e, a cada Congresso Internacional de Botânica, o mundo estremece pela expectativa. Ironias a parte, as alterações no Código Internacional de Nomenclatura Botânica – ICBN (do inglês International Code of  Botanical Nomenclature) visam, sobretudo, eliminar a o risco de se haver espécies com o mesmo nome e, também, refletir a filogenia. Se ainda acha que não há problemas em haver duas espécies com o mesmo nome, recomendo a leitura do livro Na Natureza Selvagem, de Jon Krakauer e, também, o filme homônino de Sean Penn.

Como toda palmeira, a carnaúba não apresenta crescimento secundário, ou seja, crescimento em largura. E, como uma palmeira típica, continua crescendo em altura, por muitos anos. Isso ocorre a alguns centímetros abaixo do ápice caulinar dessas plantas, pela ação de um grupo específico de células meristemáticas das folhas mais jovens, chamada de meristema intercalar. Isso quer dizer, simplesmente, que são células pouco especializadas. Pois bem, estas, nessa região, caracterizam-se por permanecerem em uma intensa atividade específica: dividir-se e se expandir freneticamente. Isso permite que ocorra o crescimento em altura do caule em diversas palmeiras, entre essas, a carnaúba. E, o mais interessante é que, diferentemente da maioria das plantas, as palmeiras crescem de baixo para cima (1).

Pode parecer trivial que um ser vivo cresça em tamanho. Mas, ao se encarar o fato que, dentre as monocotiledôneas, as palmeiras são das poucas que apresentam crescimento secundário, mesmo que difuso, está se encarando a evolução em ação. Palmeiras são características dos trópicos e, a nossa carnaúba, é uma típica representante da floresta de monções brasileira, a caatinga, e está distribuída nas planícies aluvionares desse bioma.

O caule das palmeiras, longo, para mais de quinze metros, cilíndrico, não ramificado, é denominado estipe e é observado em outras palmeiras, como o coqueiro, parceiro da carnaúba na bandeira do RN. Lá em cima, na “copa”, vê-se de dez a vinte folhas, com limbos espalmados, de até centenas de centímetros de largura, sustentadas por pecíolos longos, todos partindo do topo da planta. Das folhas é que se extrai a cera de carnaúba. Na estação de chuva, entre os meses de junho e outubro, aparecem diminutas flores, apinhadas, formando espádices, parecidos com churros salpicados de açúcar e canela, de até dois metros de cumprimento. E, já em novembro, é possível haver a frutificação, que se estende até março. Grandes cachos de bagas pequeninas, uns coquinhos mesmo, verdes, e, quando maduros, arroxeados. São centenas de bagas formando dezenas de cachos do fruto oleoso (2).

Cachos de drupas de carnaúba, ainda verdes.

Cachos de drupas de carnaúba, ainda verdes.

Essa estrutura dota a carnaúba de um charme todo especial, que faz com que a planta sirva bem a fins ornamentais. Porém, suas aplicações são inúmeras, desde o paisagismo, passando pelo artesanato e a indústria, até alimentação. E são inúmeras as pesquisas que investigam o potencial de uso da planta na indústria, na agricultura e, até, na construção civil.

Conforme já dito, as palmeiras não se ramificam, embora cresçam. Por isso, sempre que passo pela Universidade Federal Rural do Semi-árido – UFERSA, em Mossoró/RN, aponto aos visitantes que comigo se encontram o raro espécime de carnaúba com ramificação do caule, plantado na entrada de um dos prédios da universidade. Essa curiosidade foi me revelada nos tempos de pesquisa agropecuária na Empresa de Pesquisa Agropecuária do Rio Grande do Norte, a EMPARN. Nos arredores do município de Mossoró, aliás, são encontradas belíssimas florestas de carnaúbas, com as próximas ao Rio Piranhas-Assu.

Bom, agora que sabemos que a carnaúba não é uma planta qualquer, e merece toda a distinção que lhe foi despendida, que tal chama-la por um nome mais pomposo?

Assim, quando virem uma carnaúba, em um canteiro ou praça de Natal, estufem o peito e digam: lá está uma Copernicia prunifera.

Não, carnaúbas não ramificam. Mas, tudo acontece em Mossoró/RN.

Não, carnaúbas não ramificam. Mas, tudo acontece em Mossoró/RN.

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Publicado por: Lucila Brito | 11/04/2010

As árvores são noz, legume…

O blog é sobre árvores em Natal e a primeira coisa que quero apresentar são as próprias. Um pouco diferente daquela representação bucólica do terceiro ano do Ensino Fundamental: uma enorme copa verde, sustentada por um tronco com uma formação elipsóide na porção mediana e repleta de frutinhas vermelhas.

Sim, porque, por minha curta experiência como professora, é isso o que deve ficar, mesmo, para o cidadão comum de Natal. Pela minha experiência, as escolas em Natal passam ao largo do conteúdo de Botânica no Ensino Médio. Em parte, pela aversão dos professores pelo tema. Pouquíssimos biólogos, bacharéis ou licenciados, saem dos corredores da Federal do RN com algum apreço por fotossíntese, o que dirá por crescimento secundário, câmbio vascular, câmbio da casca e correlatos. Em parte, em função daquele questionamento filosófico profundo que passa na mente de todo estudante: em que isso me será útil na vida? Não compactuo da visão meramente utilitária da educação, mas, vejamos se será possível achar uma utilidade para o entendimento do que é uma árvore.

Ao contrário da maioria dos vegetais, as árvores continuam a crescer em espessura quando o crescimento em altura cessa. Bem parecidas conosco, não? Mas, esse crescimento é bem saudável do que pode ocorrer com humanos, porque permite que o espessamento do caule, estacionária ou continuamente, de modo que podem sustentar as copas das árvores por muitos anos.

O crescimento em espessura das árvores é chamado de crescimento secundário e é iniciado em dois tecidos de células especializadas: o câmbio vascular e o câmbio da casca. Grosseiramente, podemos dizer que esses tecidos iniciais formam duas estruturas bem conhecidas: a lenha e a casca da árvore. Por isso, plantas que apresentam crescimento secundário são chamadas de lenhosas e, nesse grupo, enquadram-se as árvores e os arbustos.

Podemos dizer, então, que o câmbio vascular e da casca são as células-tronco dos caules das lenhosas, porque mantém a capacidade de formar as camadas de seus caules característicos. É a atividade desses tecidos que diferencia, visualmente, ervas, arbustos e árvores, porque permite que o caule seja muito mais espesso nessas últimas duas categorias.

Plantas herbáceas, como o mato que cresce em vários terrenos abandonados da grande Natal, apresentam pouco ou nenhum crescimento secundário e, geralmente, têm um ciclo de vida curto. Mas, mesmo assim, algumas ervas podem crescer continuamente pelo desenvolvimento de caules subterrâneos, como na bananeira (isso mesmo, não é uma árvore) ou na tiririca, a erva – daninha não o palhaço.

Herbáceas indesejáveis em canteiro central no bairro de Candelária.

Plantas arbustivas, como a mamona, parceira de brincadeiras entre muitas crianças, apresentam o crescimento secundário, assim como nas árvores, o que forma um caule mais espesso. Entretanto, em lugar de ser observado um único tronco com uma ramificação superior, chamada de copa, vêem-se diversos ramos já a partir do solo. Geralmente, os arbustos não apresentam casca muito espessa.

Plantas arbóreas, como os diversos ipês-amarelos espalhados pela cidade, apresentam crescimento secundário, com a formação de caule único- o tronco, e casca espessa. Plantas com essas características surgiram há, pelo menos, trezentos milhões de anos, mas eram mais semelhantes a samambaias do que às árvores que estamos familiarizados hoje. Hoje, pobrezinhas, essas samambaias são carvão. As árvores mais parecidas com as que conhecemos hoje começaram a surgir há cerca de duzentos milhões de anos, quando os continentes começaram a se afastar e a atmosfera e os oceanos se recuperavam de mais uma das muitas crises que este planeta neurótico passa, de tempos em tempos.

Já por essa época, começou a surgir a diversificação da flora em função da localização geográfica, conforme vemos hoje. Por exemplo, nossa Mata Atlântica, mesmo sem ter a diversidade de espécies arbóreas da Amazônia, tem uma maior diversidade que uma Floresta de Coníferas americana, inspiração para árvores de Natal – o feriado. Essa variação de diversidade de floresta para floresta é reflexo da influência climática, que comento na Primeira Folha.

Repare o tronco único que sustenta a ramificação superior de mais de seis metros, em uma praça do bairro de Mirassol.

Mas, por que será que aqui, próximo ao equador, é mais diverso? Tudo é mais ameno nas proximidades do equador. Mesmo com nossos períodos de estiagem, água e temperatura não são fatores extremamente limitantes por aqui. Não há neve, nem frio ou calor intenso. Qualquer quentura maior, basta perder algumas folhas, para diminuir o metabolismo. Talvez, também, a maior diversidade por esses lados seja devido a mais algumas crises do planeta – gelo, eventos geológicas, mil coisas… que estimularam a ação dos fatores evolutivos por aqui. Assim, com a licença de Darwin, podemos tirar o entendimento que mais espécies tiveram a oportunidade de se diferenciar e se adaptar a este lugar ao sol, enquando encaravam essas tormentas.

Então, leitor, em resumo, eis a árvore: vegetal, de grande ou médio porte, com caule lenhoso e ramificado na porção superior, que apresenta sementes cobertas por fruto (angiosperma) ou não (gimnosperma). Aí encontramos diversas dicotiledôneas, algumas magnólias e muitos pinheiros. Por essa definição, lembre-se, bananeiras não são árvores. Nem palmeiras, porque não têm crescimento secundário e, sim, um tipo específico de crescimento primário.

Mas, como eu poderia deixar a carnaúba, “árvore” símbolo do estado, de fora dessa conversa? Desculpa Academia, mas, semana que vem, com as devidas explicações, apresento a carnaúba.

Carnaúbas na calçada do Centro de Turismo da cidade.

Publicado por: Lucila Brito | 03/04/2010

Primeira Folha

Esta é Natal/RN. Ao fundo, o Rio Potengi.

Este blog surge da união entre duas paixões e uma necessidade.

Das paixões. Por palavras e flores. Desde menina. A tal ponto de nove entre dez redações feitas no tempo de escola ser de variações sobre o tema… Muito constantemente, sobre o título “A Natureza”. Perceba a sofisticação estilística.

Da necessidade. Minha formação é essencialmente ligada ao conhecimento de coisas naturais. Em outras palavras, sou bióloga. Mas, como muitas outras profissões, no exercício diário, acaba-se por destinar mais tempo ao serviço de papelada, mesmo. Então, para evitar que a monotonia comprometa minha paixão legítima pela profissão (“A Natureza” sempre em mente), procurei uma coisa que me fizesse estar sempre em contato com as coisas naturais e que me fizesse pensar ser um trabalho, também.

Então, cá estou eu iniciando este projeto chamado de “Árvores de Natal”. Percebeu meu tino publicitário? Ao menos em uma época do ano este blog poderá ter a visitação consideravelmente elevada… Mesmo que seja por desavisados, em busca de inspiração para decorações natalinas. Quem sabe eles não simpatizam e acabam ficando. Assim me poupo do embaraço extremo, para uma pessoa reservada, que seria divulgar este espaço. Acho que irá funcionar.

E por que árvores? Planta é a forma primária de minha paixão pela Biologia. O interesse pelo que era microscópico só veio depois, já na faculdade. No princípio, digo, no início do curso, era o mangue. Depois veio a Fisiologia e a produção vegetal. Agora, ainda bióloga, estou meio longe dos vegetais, especificamente. Há pouco tempo, percebi que as árvores estavam meio esquecidas em uma prateleira empoeirada da minha mente. Tive, em dada ocasião, dificuldade em identificar certa árvore corriqueira, dessas que tem as dúzias, nas calçadas de minha cidade.

Minha cidade é Natal, capital do Rio Grande do Norte. Você pode ter muitas informações sócio-econômicas dela aqui. Aqui, irei lhe informar apenas que o clima predominante é o equatorial seco. Em termos gerais, isso quer dizer que temos duas estações bem definidas: o verão (ou estação seca) e o inverno (estação chuvosa) e uma temperatura média de 28°C. Mas, a localização privilegiada de minha cidade acrescenta mais uma variável extremamente bem-vinda: a brisa. Sopra constantemente do mar. Isso nos dá a seguinte condição de vida cotidiana: clima quente e fresco. Ou nos dava. Cenas dos próximos capítulos.

Não esqueçamos o sol. Natal está muito próxima a Linha do Equador. Aquela que divide o mundo em duas partes: os hemisférios norte e sul. Isso faz com que os raios solares incidam mais diretamente sobre a nossa cidade. Para se ter uma idéia, em Natal, durante caso todo o ano, amanhece às cinco horas e anoitece as dezessete. Doze horas diárias de sol. Na sua cidade, que horas amanhece? Depois conversamos sobre isso. Mas, como eu ia falando, é muito sol o ano todo. E isso influencia diretamente o clima característico de Natal. E, nos últimos anos, a incidência de radiação solar, por demais insistente, tem castigado bastante, ao menos a quem não está aqui a passeio. Outras cenas.

Então essa é Natal. E as plantas? E as árvores? O clima e a insolação, moldados pela localização de Natal, favorecem ao aparecimento de um bioma tropical característico da América do Sul: a Mata Atlântica. Ao longo da costa atlântica, a vegetação que forma esse bioma varia bastante. Aqui, em Natal, ela se apresenta, principalmente, composta de três ecossistemas: floresta tropical subcaducifólia, restinga e manguezal. Muitos termos técnicos neste parágrafo, não? Por isso, pesquise!

A floresta tropical subcaducifólia é bem representada por um dos maiores parques urbanos do Brasil, o Parque das Dunas. É esse aí do cabeçalho do blog, visto do Centro de Convenções de Natal. Lá, podem-se encontrar representantes arbóreos desse ecossistema tropical, mas também da caatinga, uma savana brasileira. Como o próprio nome sugere, a ação dos ventos leva ao relevo que caracteriza não só a capital, mas grande parte do litoral do RN: as dunas.

A restinga, na minha cidade, é predominante arbustiva. O que quer dizer que árvores, em Natal, são pouco frequentes nesse ecossistema. Talvez, há alguns anos, fosse mais comum encontrá-las em restingas.

O manguezal, ecossistema de grande impacto visual, pode ser identificado às margens do principal rio que corta a cidade, o Rio Potengi. A este, a cidade se ocupou de dar a função de, por assim dizer, divisor social. Tanto que, mesmo com exuberância natural semelhante nos dois lados, em matéria de áreas verdes planejadas, como praças, o desequilíbrio entre os dois lados é gritante.

E, aqui, voltamos ao que originou este blog: a arborização urbana. A beleza natural da minha cidade não encontra integração e reflexo no espaço urbano. Embora haja raríssimas e honrosas exceções, como a praça ao lado do corpo de bombeiros, as áreas verdes públicas da cidade falham em reproduzir o encanto natural que atrai tantos visitantes.

O Corpo de Bombeiros e sua praça na esquina entre as Avs. Alexandrino de Alencar e Prudente de Morais.

Na verdade, não sei se sequer houve preocupação em fazê-lo. Aqui, não discuto o projeto, bem sucedido, das duas principais áreas verdes públicas da cidade, que o Bosque dos Namorados e a Cidade da Criança. Embora esse último se encontre um pouco abandonado atualmente. Acredito estar em reforma… Voltando, falo dos espaços de fácil acesso, que possam trazer qualidade de vida e conforto térmico sem que, para isso, haja necessidade de um grande deslocamento. Temos canteiros e calçadas pouco arborizados. Se arborizados, pouco planejados. Temos praças sem árvores e, quando existem, sem manejo adequado.

Essas condições de arborização urbana em Natal são preocupantes, principalmente, quando lembramos que a cidade já esteve entre as mais arborizadas do país. Talvez, por isso encontrei tantos planos de cuidar da arborização de Natal quando comecei minha criteriosa pesquisa (leia-se, digitar “arborização urbana em Natal” no Google) para iniciar este blog. Louváveis. Estão aqui, aqui e aqui, para quem quiser conhecê-los, também.

A mim, a motivação vem das paixões e da necessidade que citei no início do post. Posso adicionar também a vontade de que eu, assim como outros moradores de Natal, possa contar com a sombra providencial de uma árvore ao caminhar pelas ruas, durante outro verão escaldante. Metade disso, em praças e parques, legalmente, é nosso direto. A outra metade, em vias públicas e quintais, legalmente, não são nossos direito. Mas, sabemos do bem que fazem.

Calçadão da Av. Roberto Freire. Atrás da cerca, o Parque das Dunas.

Embora a beleza natural seja um exemplo a ser seguido, não acredito que as árvores de Natal devam refletir apenas o que nos é natural. Deve refletir o que também nos é social: essa cidade repleta de gente de fora, do interior. Que trazem consigo parte do que lhes é natural, também. Que trazem consigo parte do que lhes é emocional.

Por isso, o Árvores de Natal irá apresentar, semanalmente, não apenas espécies características dos três principais ecossistemas que compõem a nossa cidade. Irá apresentar, também, as árvores que aqui chegaram pelas mãos de gente de fora e de gente de dentro. Desde que essas árvores reflitam Natal. Seja o clima, a cidade ou as pessoas.

Árvores de Natal terá muita Biologia, muita Evolução. Espero que isso não o afaste, porque quero lhe mostrar também a poesia dessa minha paixão.

Mas, o que, no fim das contas, é uma árvore?

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