Publicado por: Lucila Brito | 05/07/2013

João e o Pé de Feijão

Parem de subestimar o povo - revistas da semana de 16 a 21 de junho de 2013.

Parem de subestimar o povo – revistas da semana de 16 a 21 de junho de 2013.

Mais uma vez, saio do tema deste espaço. Mas é que as coisas esquentaram no último mês no Brasil. Esquentaram, mesmo, com direito a bombas, molotov e spray de pimenta.

Tudo começou por conta de vinte centavos, com manifestações do Movimento Passe Livre de São Paulo. Todos já conheciam o grupo no país, que sempre faz  manifestações pelas capitais quando as tarifas sobem. Em São Paulo, li que já haviam se acorrentado a catracas, em outra ocasião de aumento de tarifas. Já chegaram a conseguir baixar tarifas em Teresina e em Natal, também. Em Natal, evoluiu e é tão organizado que contribuiu para a derrubada da prefeita Micarla.

Mas, aparentemente, o poder público paulista desconhecia a tenacidade dos meninos. E, o governo federal, subestimou a capacidade dessa tenacidade vir a impactar a mídia. Deve ter pensado: mesmo sendo a prefeitura petista da principal capital do país, nunca que a grande mídia irá se colocar ao lado de manifestantes que confrontam os interesses de um setores que tem os principais financiadores de campanhas no Brasil, que são as empresas de transporte público.

A mídia não estava muito aí, mesmo, não. Mas há o fator redes sociais e, quando a mídia percebeu a capacidade de mobilização desse fator, foi, como dizia o TV Pirata, nitroglicerina pura. E, o governo federal foi o principal atingido.

Desculpem-me, mas foi bem feito. O governo tem ignorado demandas sociais que, historicamente, esteve ao lado, para agradar a mídia e “azelite”… Parece que não aprendeu que nunca foi a mídia o canal de comunicação com o governo, e, sim, a relação direta como o povo organizado. A parcela popular doutrinada pela mídia sempre o será ou irá tomar uma decisão de última hora, nas eleições, depois de conversar com amigos, o chefe, colegas de trabalho, cônjuge, amante, namorado… Todos esses podem ser ou ter simpatia pelos movimentos sociais organizados e são esses que irão fazer a diferença nas eleições. Não tem para que ignorar o povo e prestar continência a elite no meio do mandato. É eleitoreiro demais e, mesmo quem entende que há mais interesses envolvidos do que supõe nossa vã filosofia, fica possesso da vida… Quer dizer que, na hora do “vamos ver” o que o povo organizado recebe é balada de borracha e pimenta nos olhos?!

Bom, o resultado foi um babado fortíssimo: micareta cívica nas ruas, loucos de direita nacionalista e/ou militarista cooptando os eventos do facebook criados para divulgar as micaretas cívicas, movimentos organizados expulsos destas para não haver oportunismo partidário (?!), oposição de esquerda aproveitando para gritar mais alto os descasos do governo, oposição de direita fabricando bolinhas de papel tamanho GG adoidado para capitalizar nas eleições, Globo transmitindo non stop as manifestações e a quebradeira – no Bom Dia Brasil, na Ana Maria Braga, no programa de bem-estar para as donas de casa, na sala de estar de Fátima Bernardes, no Jornal Hoje, no Jornal Nacional e por aí foi… Loucura, loucura, loucura!

Os governistas que eu acompanho no twitter ficaram desorientados: é golpe! é eleição! sai da rua, meu povo! Eu fiquei doidona, também, até cogitei pegar a primeira balsa para Cuba, mas de jeito nenhum achei ruim o povo na rua, mesmo que para uma micareta cívica. Acho que já era hora de haver, sim, o confronto de posicionamentos e interesses. E é o que está havendo no Brasil. E, mais, acho que esse é o primeiro passo para superar a cordialidade nociva que atrasa o país.

Ainda não acabou tudo isso, mas acho que o governo Dilma está usando uma boa estratégia, mesmo que o povo a ignore. Está aproveitando as manifestações para desengavetar temas espinhosos, que “azelite” e sua base aliada amiga-da-onça nunca permitiram o encaminhamento e, mensalão, claro, está fora de cogitação, desde de 2005, que foi, até agora, a única estratégia que permitiu a aprovação de reformas estruturais. Horrorizem-se o quanto quiserem.

Não sei dizer se, eleitoralmente, o PT sairá vitorioso, mas foi um risco que o Governo Federal correu ao optar por ignorar as críticas de esquerda, fiar-se nas pesquisas e ninar a direita. Claro, é um risco que ele correu e que todos nós poderemos sofrer as consequências. Mas, o que o povo poderia fazer? É só eleitor, no atual sistema político do Brasil.

Acompanho muito política no twitter. Cansei de só ver elogios de governista às ações do governo, brigas entre criaturinhas (é assim que chamo as pessoas no twitter, porque ficam falando sem parar dentro do meu celular, como seres imaginários) pró e contra governo e visões uni direcionadas. Se o Governo Federal usa o twitter para acompanhar a opinião pública, foi essa a causa da surdez.

Eu sou adepta a jogar conversa fora. Converso com garçom, taxista, atendente de supermercado, aposentado na fila do banco, velhinho na padaria… Costumava conversar com chefes e colegas de trabalho, para saber a opinião, mesmo. Pessoas entre 40 e 70 anos, de capitais nordestinas, nicho petista, sim, não há vergonha em admitir isso. Essas pessoas não são antiquadas. Viveram momentos na história do Brasil muito mais críticos do que o que vivíamos até maio de 2013. Essas pessoas entendem como se dá a política e porque votaram no Lula e, por causa dele, na Dilma. Essas pessoas não irão defender com unhas e dentes o governo, mas querem o governo as defenda. Como permanecer ao lado de um governo indiferente?

Há um jornalista que sigo no twitter, petista fervoroso, que dá piti sempre que vê algum governista criticando demais as decisões ou posições do governo Dilma. Diz que os governistas querem colo de Dilma. Defende aquela história de manter a unidade. Não tanto por ele, que esteve nas manifestações desde o início, mesmo a esmagadora maioria governista se dedicando a desqualifica-las, mas foi essa unidade em momento desnecessário que ensurdeceu o Governo Federal.

Agora, Dilma precisa ouvir bem e, caso as criaturinhas governistas do twitter sejam os ouvidos de Dilma, é melhor comprar cotonetes. Mas, olha, o gigante fala alto, viu?

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  1. Republicou isso em Fingindo Paciência.


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