Publicado por: Lucila Brito | 01/07/2013

Terra em Transe

Manifestação Passe Livre - 20/06/13 - João Pessoa/PB

Manifestação Passe Livre no Parque Sólon de Lucena – 20/06/13, João Pessoa/PB

Volto, mas com a liberdade de tratar de um outro tema, tangencial ao Meio Ambiente, porque o Brasil está em transe. Um transe político que antecipou as eleições. E, se há uma coisa que gosto mais de falar do que sobre plantas é sobre política.

Não quem vence ou perde. Meu interesse em política é tão estratégico como o dos políticos. Os atores da política em evidência, leia-se oposição e situação, ao contrário do que nos querem passar, não estão lá muito interessados em garantir o poder ao povo. O poder na acepção do bem estar social, dos recursos e das reservas. Todas essas questões são secundárias na luta pelo controle desse poder. O poder do povo equivale a vinte centavos, na política brasileira. A situação e a oposição se preocupam apenas em como isso pode lhes render e a quem os financia, em todas as esferas. Essa é realidade da política brasileira. Na concordo com ela, mas não a ignoro.

E, a exemplo dos políticos, eu tento tirar proveito dessa realidade. No meu caso, como povo. O político quer manter o teatro de que está a serviço do povo. Eu, povo, quero pagar para ver. Quer meu voto? Querem controlar o poder do país? Então, preparem-se para a cobrança  das promessas do teatro montado na campanha eleitoral. Não gostaria de ter de me dizer exemplo para ninguém, mas se o povo seguisse um pouco mais o meu modus operandi político no Brasil, as coisas seriam bem menos cínicas na política.

Digo isso porque, hoje, o povo brasileiro comemora conquistas que, se fossem cogitadas há um mês, qualquer um diria ser piada.. A aprovação no Senado do Projeto de Lei que torna corrupção um crime hediondo é uma delas. Mas, as mais representativas conquistas populares são relativas à questão do transporte público. Quedas nas tarifas pipocam por todo o país. Nas principais capitais, as planilhas de transporte público começam a ser questionadas. CPI’s para investigação dos desmandos na execução desse serviço são cogitadas.

E o que dizer da reforma política na pauta do Congresso? Isso era um sonho pessoal meu há anos e só isso poderia mudar minha estratégia na política brasileira. Nada de dinheiro privado nas campanhas. Qualquer pessoa que tenha atuado em uma estatal tem claro que o Estado é privado e, tudo o que se faz para o público, passa pelo aval do privado. Tudo isso é consequência direta do dinheiro que financia as campanhas. E, sim, as empresas de transporte público se beneficiam demais desse mutualismo que parasita o Estado.

As conquistas da última semana foram catalisadas pela presença do povo na rua. Situação e oposição querem garantir os milhões de votos do gigante que acordou. O povo até tem consciência disso, mas, por tanto tempo de letargia, iguala a resposta da situação e da oposição. O povo parece não saber que todas as conquistas que iniciaram na última semana estavam em muitas gavetas do Congresso, das Câmaras municipais, nas governadorias, nas prefeituras… Embora todas já tivessem engatilhadas, muitas pela situação no governo federal. Sim, o PT.

Um exemplo? Na última semana a Câmara federal aprovou Projeto de Lei – PL que destina 75% dos royalties do petróleo para educação, 25% para a saúde e mais 50% do Fundo Social para a educação. No final de 2012, esse PL, apresentado pelo Governo Federal com algumas diferenças do atual, foi pauta no Congresso e sofreu derrota monumental, com total silêncio do povo brasileiro. O mesmo povo que, agora, saiu às ruas exigindo saúde e educação. O que mudou de lá para cá? O Governo tem a mesma base aliada e a mesma oposição na Câmara que tinha no final de 2012. O que mudou foi o povo na rua. Não digo que o povo precise estar sempre na rua, mas não pode se omitir. Não pode votar e deixar correr.

Não é possível, também, instalar-se na arquibancada e torcer pela oposição ou situação por quatro anos. Veja bem, o voto, na atual forma que a política se dá no Brasil (e, por isso, sonho com a reforma política), é estratégico. Não há ideologia para se defender no partido que venceu as eleições. Há ações a se cobrar. Quem chegou ao governo, dentro do atual sistema político, teve de se adequar as regras do jogo. E, estas, em nada tem a premissa de poder para o povo. Nestas, só cabe o mutualismo entre o poder público e o poder privado. Qualquer conquista do povo é troco, no atual sistema.

Mas há como, no atual sistema político, reduzir a tarifa do jogo de interesses e aumentar o troco para o povo. E, não, não é demonizando a situação ou fechando os olhos para os interesses da oposição. É sendo a camisa 13. O povo é a variável nessa equação. E, a depender de seu valor, é quem determina se os maiores ganhos serão para a corrupção ou para a democracia.

Mesmo assim, há quem tente jogar a carta da ideologia na cena política atual. Não me entendam mal, sou mulher, negra, nordestina e de origem humilde. Sou, portanto, fatalmente, de esquerda. Tive acesso a muita literatura e leitura de atualidades e estou convencida que, para a democracia brasileira se iniciar, em função da gritante desigualdade socioeconômica do país, só pelo caminho da esquerda. Talvez algum dia, quando tudo estiver equilibrado no país, possa-se pensar em um ideário no qual o liberalismo econômico e o conservadorismo social possam ser discutidos sem implicar em risco a democracia. Mas estamos bem longe disso. Assim como estamos, também, longe de uma política ideológica.

A parte minha utopia de esquerda, não me animo com partidos que se apressam na defesa dessa visão política, ou criam novas denominações, para se colocar no jogo eleitoral. Tudo está submerso aos interesses eleitorais, os quais, por sua vez, estão submetidos aos interesses privados. Não questiono partidos como o PSTU e o PSOL, partidos de esquerda, sem expressão no Executivo, mas cuja atuação nas diversas esferas do legislativo me faz considerar que contribuem para que a disputa política permaneça cumprindo um papel de luta social. Questiono, infelizmente, a Marina e sua Rede.

Palestra de Marina Silva na UFPB - 19/06/2013, João Pessoa/PB

Palestra de Marina Silva na UFPB – 19/06/2013, João Pessoa/PB

Marina Silva é um ícone para mim. Sua trajetória e sua atuação no Ministério de Meio Ambiente – MMA são exemplos a serem observados. Mas Marina tem essa obsessão pela presidência e segue uma leitura marqueteira sonsa que me deixa extremamente chateada, para não soltar um palavrão. A verdade que preferia Marina no Legislativo ou em uma secretaria de estado do que no Executivo, em qualquer esfera.

Marina segue uma orientação que sublinha o que é seu eleitorado esquerdista, ou sustentabilista progressista (como a ouvi se denominar em uma palestra): apartidário, jovem, internauta e politicamente moralista. Seu eleitorado não gosta de partidos, assim, Marina não deverá lançar um partido. Seu eleitorado é jovem, assim, Marina deverá aplaudir as inquietações dessa fase. Seu eleitorado é internauta, assim Marina deverá entender essa ferramenta e destacar seu impacto positivo na sociedade atual. Seu eleitorado é politicamente moralista e, por isso, Marina não se alia a qualquer aliado do atual Governo Federal, que tem o rótulo midiático de partido mais corrupto da história deste país, a não ser que estes tenham sido ou venham a ser preteridos pelo PT.

Mas a candidatura de Marina segue a mesma cartilha das demais candidaturas brasileiras: baseia-se em um perfil do eleitorado, apoia-se em poderio econômico privado e é construída pela demonização dos opositores. É mais do mesmo. A Rede de Marina é tão bem construída em termos estratégicos que não achei sequer um artigo que estabeleça uma análise sobre a estratégia de comunicação/marketing da Rede, pude apenas subentender desses textos que li. Claro, há artigos partidários críticos, mas que não expõem a estratégia de comunicação que sublinha o projeto da Rede.

Palestra de Marina Silva na UFPB - 19/06/2013, João Pessoa/PB

Palestra de Marina Silva na UFPB – 19/06/2013, João Pessoa/PB

Assim, todo o discurso da Rede de Marina é chamado, na gestão ambiental empresarial, de maquiagem verde. Marina presidenciável entende tudo, está na fronteira da sustentabilidade e não é como nada disso que está aí. Mas o que essa Marina irá fazer? Li uma entrevista dela esses dias e me encabulei com a capacidade que tinha em explicar o que está acontecendo no país agora, em dizer o que Estado está fazendo de errado agora e em não dizer nada sobre o que acha que deva ser feito, porque tudo é uma construção coletiva que-ouve-e-fala-ouve-mais-depois-fala-mais-em-um-moto-contínuo-infinito-e-despropositado. Por que cargas d’água isso seria diferente do que aí está? Desculpem-me, desculpo-me a mim, Bióloga, mas não é.

Ao acompanhar uma palestra ministrada por Marina Silva no último dia 19, na UFPB, senti que não há porque me recriminar em admira-la. Marina tem muito a contribuir nas discussões sobre sustentabilidade, nas questões de ativismo, representação e atuação política. Então, prefiro Marina Silva no Congresso, na ONU, em uma secretaria de Estado, são nesses fóruns que a representatividade popular se dá. Pode ser que, algum dia, haja uma nova forma de se fazer democracia, mas não me parece nada com o que a Rede propõe. Melhor Marina ativa e de fronteira nas velhas cadeiras do que nessa democracia verborrágica da sua Rede, desejando a presidência, tal qual um Gollun verde.

A mim, como povo, Marina presidenciável não serve de nada. E não entra no meu jogo.

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Responses

  1. Republicou isso em Fingindo Paciência.


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