Publicado por: Lucila Brito | 19/12/2012

O Grande Príncipe

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Um pé de Adansonia digitata.

No RN, o baobá, em relação ao resto do Brasil, é, digamos, lugar-comum. Há baobás em várias localidades do estado. E, o de Natal, diz a lenda, é bem especial. Seu guardião, o poeta imortal Diógenes da Cunha Lima, sustenta que esse espécime, a cidade e o estado do RN como um todo, serviram de inspiração para O Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry. E, este, muito bem explicou, para muitos principezinhos pelo mundo a fora, que baobás não são arbustos. São árvores grandes como igrejas (1).

No livro, os baobás representam as pequenas preocupações, as praguinhas, que povoam nossos pensamentos e palavras e que, se não extirpadas cotidianamente, podem se tornar monstros colossais, letais para a nossa frágil essência. Isso porque os baobás d’O Pequeno Príncipe são grandes e numerosos demais para o planetinha B 612. Mas, na Terra, os baobás fazem justamente o contrário. Como todas as árvores, são ferramentas utilíssimas para a higiene mental e, assim, na manutenção da imaginação saudável da infância em qualquer adulto que delas se aproxime. O de Natal cumpre esse papel de maneira exemplar.

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O poeta do Baobá.

Árvore louvada em verso e prosa por literatos, visitada por figuras ilustres, incluindo o sobrinho de Saint-Exúpery, e pivô de mais uma das controvérsias norte-rio-grandenses, o Baobá da R. São José pertence à espécie Adansonia digitata, nativa do continente africano.

Estudos de Etnobotânica, como os do prof. John H. Rashford, dizem que os baobás e diversas outras plantas consideradas sagradas pelos povos africanos, foram trazidas para as Américas pelos negros traficados durante a colonização do continente. Esta, para mim, é uma clara expressão do que há de mais especial no espírito humano. Imagine você, tirado de seu ambiente, sob as condições que todos sabemos (ou, ao menos, deveríamos saber) e, sem saber para onde iria, ao chegar, plantar as sementes de uma árvore gigantesca, perene, sagrada… Aí reside a esperança de proteger seus descendentes.

Seriam os pertences de quem o baobá foi destinado a proteger?

Seriam os pertences de um dos descendentes que o baobá foi destinado a proteger?

Porque um baobá é gigantesco e milenar. O de Natal mede 18 metros de altura e tem 17,5m de circunferência e teria germinado há alguns séculos. Mas, em geral, essas árvores podem ser bem maiores que isso e datar de milhares de anos atrás. Isso tudo é bem mais impressionante por serem árvores características de clima árido. São, ainda, caducifólias, e têm uma interessante adaptação. A sobrevivência de vegetais em ambientes áridos pode ser garantida pela suculência, que é o acúmulo de água em raízes, folhas e, também, caule.

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Grande como uma igreja.

O caule do baobá é lenhoso, o popular tronco, e provido de um tecido fundamental especializado, o parênquima aquífero. Este, armazena água geleificada em suas células com grandes vacúolos e paredes muito finas e resistentes. São verdadeiras cisternas orgânicas. Essa reserva, coletada durante o período de chuvas, pode fornecer, em um único dia, até 400L de água para o baobá (2).

A biografia do baobá da R. São José seria mais ou menos assim: após muitos anos, germinou como uma eudicotiledônea, lutou para se desenvolver durante mais algumas dezenas de anos e, finalmente, quando se tornou maduro, entre uns longínquos meses de outubro e março, produziu suas intrigantes flores, que duraram um único dia, no qual mudaram de cor de brancas até roxas, e, bem, não cheiravam muito bem. As fotos que ilustram este post foram feitas em abril de 2010, já no fim da floração, e, não foi possível registrar nenhuma flor. Mas, irei à Natal, neste fim de ano e prometo montar acampamento em frente ao baobá do poeta, só, para, depois, tentar lhes mostrar as flores do baobá. Até lá, podem vê-las pelas lentes profissionais de um amigo do poeta.

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Esses pedúnculos sustetaram flores no final de 2009 e início de 2010.

As flores de um baobá são grandes, com cinco pétalas justapostas e monóicas, com numerosos estames rodeando o carpelo. O baobá da R. São José pode ser polinizado… Bem, pela ação de… Pássaros… Quem sabe, besouros, moscas, morcegos, mariposas?! Sabe-se lá que bichos são atraídos pelo cheirinho de carniça de suas flores!

Não vi nenhum estudo sobre a polinização do baobá da R. São José, mas, um pouco de conhecimento de Evolução pode dar algumas pistas. O tamanho, a cor inicial, a floração noturna (no ambiente natural) e, claro, o odor característico sugerem que os agentes polinizadores do baobá de Natal seriam besouros ou morcegos. Aliás, as plantas com flores, as angiospermas, são belos exemplos de co-evolução. As angiospermas primitivas se utilizavam do vento como agente polinizador. Porém, a descoberta do pólen como alimento pelos insetos foi, como dizer, uma revolução tecnológica da polinização. Pouco a pouco e, então, subidamente, a acerca de 40 milhões de anos, a evolução tratou de garantir que características de flores e insetos fossem selecionadas para a atração dos parceiros mais eficientes na polinização das flores e na nutrição dos insetos (3). Daí para os morcegos e pássaros, foi um pulo.

Os frutos surgidos após a polinização são, como poderíamos esperar, também grandes e ficam pendurados por um pedúnculo, lembrando ratinhos. Por isso, diz a Wikipédia, o baobá é, também, conhecido, como “árvore do rato morto”.

E essa vida de baobá, anualmente, repete-se. E bota repetição nisso… A estimativa é de que os baobás possam viver 2.000 anos (4). Os pesquisadores podem (e, frequentemente, o fazem) estimar a idade de uma planta com o emprego de um marcador radiativo, o Carbono 14.

Todos nós sabemos que todos os seres vivos são “filhos do carbono e do amoníaco”, não é? Pois bem, o carbono 14 tem uma meia via de cerca de 5.730 anos. Isso quer dizer que, por exemplo, 10g de carbono 14 leva 5.730 anos para se tornar 5g de carbono 14 e 5g de nitrogênio. Então, para estimar a idade de um baobá os pesquisadores medem a proporção de carbono 14 no espécime vivo. Assim foi descoberto que é um baobá da Namíbia a angiosperma mais antiga do mundo, com 1.275 anos. É ou não o príncipe das árvores com flores?

Do baobá da R. São José, não se sabe que idade tem, nem muito mais que isso. Sabe-se de uma estória, talvez história, de que é o baobá d’O Pequeno Príncipe. Por isso, as informações botânicas dessa árvore aqui apresentadas (espécie, dimensões, idade, floração, polinização, etc.) não são fruto de pesquisas científicas, porque na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações – BDTD, e mesmo em um Atlas Virtual de Botânica da UFRN, não consta nenhum registro de trabalhos realizados com esse príncipe potiguar.

Portanto, sigamos o conselho de Saint-Exupéry. Está mais que na hora das instituições de Ensino Siperior de Natal olharem para sua cidade, essa B 612, antes que pragas de verdade findem por destruí-la, sem deixar rastros.

Seria um bom presente para se deixar na árvore de Natal este ano, não? E, ainda, um bom desejo de fim de ano.

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Um espírito que habita o Baobá do Poeta.

(1) Saint-Exupéry, A. O Pequeno Príncipe. Tradução de Dom Marcos Barbosa. Rio de Janeiro: Agir, 2009.

(2) Dias, LG. Água nas Plantas. Monografia. UFLA. 2008. –  http://www.ceapdesign.com.br/pdf/monografias/monografia_agua_nas_plantas_lucia.pdf

(3) Raven P.H, Evert, R.F, Eichhorn, S.E. Biologia Vegetal. 6 ed. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan. 2001.

(4) Um pé de Quê – http://www.youtube.com/watch?v=GFm-Mu8_8mk; http://www.youtube.com/watch?v=XxZClCcrBoQ

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