Publicado por: Lucila Brito | 10/12/2012

Para o alto e avante

Elegantes Copernicia prunifera, tomando sol, na calçada do Centro de Turismo de Natal/RN.

Elegantes Copernicia prunifera, tomando sol, na calçada do Centro de Turismo de Natal/RN.

Reza a lenda da Wikipédia que o nome carnaúba vem do tupi karana’iwa, “árvore do caraná”. Porém, lá, a etimologia termina aí. Uma consulta ao oráculo maior (ó, Google, diga-me, o que vem a ser caraná?) informou que árvore de caraná vem a ser o mesmo que “árvore espinhosa”. Significados estes referendados por diversos trabalhos acadêmicos disponíveis na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações – BDTD. Assim, não poderia a própria Academia tirar da carnaúba o status de árvore. Então, aqui consta ela, em toda a sua exuberância, mesmo que não apresente o característico crescimento secundário das árvores.

No RN, a planta goza de tanta distinção que é representada na bandeira do Estado, ao lado de outras três espécies florísticas. Poder-se-ia, até, imaginar se tratar de um estado com rara consciência ecológica… Mas, generalizações nunca são muito inteligentes. Por isso, o que a bandeira do RN representa, mesmo, é o estado sob o ponto de vista natural, místico e sócioeconômico de um dos mais ilustres potiguares, o Sr. Luís da Câmara Cascudo.

Bandeira do RN, com a representação da carnáuba, à direita, conforme imaginou Câmara Cascudo.

Bandeira do RN, com a representação da carnáuba, à direita, conforme imaginou Câmara Cascudo.

Mas, tratemos, primeiramente, do assunto controverso que mancha a reputação de árvore da carnaúba: o seu crescimento.

A carnaúba é uma palmeira, da Família Arecaceae, surgida no final do Cretáceo. Anteriormente denominada Palmaceae, a nomenclatura dessa família botânica foi alterada pela International Association for Plant Taxonomy (Associação Internacional de Taxonomia Vegetal), em 2001. Sei que é um tema que tira o seu sono, ávido leitor, o fato de que é extremamente dinâmica a nomenclatura de plantas e, a cada Congresso Internacional de Botânica, o mundo estremece pela expectativa. Ironias a parte, as alterações no Código Internacional de Nomenclatura Botânica – ICBN (do inglês International Code of  Botanical Nomenclature) visam, sobretudo, eliminar a o risco de se haver espécies com o mesmo nome e, também, refletir a filogenia. Se ainda acha que não há problemas em haver duas espécies com o mesmo nome, recomendo a leitura do livro Na Natureza Selvagem, de Jon Krakauer e, também, o filme homônino de Sean Penn.

Como toda palmeira, a carnaúba não apresenta crescimento secundário, ou seja, crescimento em largura. E, como uma palmeira típica, continua crescendo em altura, por muitos anos. Isso ocorre a alguns centímetros abaixo do ápice caulinar dessas plantas, pela ação de um grupo específico de células meristemáticas das folhas mais jovens, chamada de meristema intercalar. Isso quer dizer, simplesmente, que são células pouco especializadas. Pois bem, estas, nessa região, caracterizam-se por permanecerem em uma intensa atividade específica: dividir-se e se expandir freneticamente. Isso permite que ocorra o crescimento em altura do caule em diversas palmeiras, entre essas, a carnaúba. E, o mais interessante é que, diferentemente da maioria das plantas, as palmeiras crescem de baixo para cima (1).

Pode parecer trivial que um ser vivo cresça em tamanho. Mas, ao se encarar o fato que, dentre as monocotiledôneas, as palmeiras são das poucas que apresentam crescimento secundário, mesmo que difuso, está se encarando a evolução em ação. Palmeiras são características dos trópicos e, a nossa carnaúba, é uma típica representante da floresta de monções brasileira, a caatinga, e está distribuída nas planícies aluvionares desse bioma.

O caule das palmeiras, longo, para mais de quinze metros, cilíndrico, não ramificado, é denominado estipe e é observado em outras palmeiras, como o coqueiro, parceiro da carnaúba na bandeira do RN. Lá em cima, na “copa”, vê-se de dez a vinte folhas, com limbos espalmados, de até centenas de centímetros de largura, sustentadas por pecíolos longos, todos partindo do topo da planta. Das folhas é que se extrai a cera de carnaúba. Na estação de chuva, entre os meses de junho e outubro, aparecem diminutas flores, apinhadas, formando espádices, parecidos com churros salpicados de açúcar e canela, de até dois metros de cumprimento. E, já em novembro, é possível haver a frutificação, que se estende até março. Grandes cachos de bagas pequeninas, uns coquinhos mesmo, verdes, e, quando maduros, arroxeados. São centenas de bagas formando dezenas de cachos do fruto oleoso (2).

Cachos de drupas de carnaúba, ainda verdes.

Cachos de drupas de carnaúba, ainda verdes.

Essa estrutura dota a carnaúba de um charme todo especial, que faz com que a planta sirva bem a fins ornamentais. Porém, suas aplicações são inúmeras, desde o paisagismo, passando pelo artesanato e a indústria, até alimentação. E são inúmeras as pesquisas que investigam o potencial de uso da planta na indústria, na agricultura e, até, na construção civil.

Conforme já dito, as palmeiras não se ramificam, embora cresçam. Por isso, sempre que passo pela Universidade Federal Rural do Semi-árido – UFERSA, em Mossoró/RN, aponto aos visitantes que comigo se encontram o raro espécime de carnaúba com ramificação do caule, plantado na entrada de um dos prédios da universidade. Essa curiosidade foi me revelada nos tempos de pesquisa agropecuária na Empresa de Pesquisa Agropecuária do Rio Grande do Norte, a EMPARN. Nos arredores do município de Mossoró, aliás, são encontradas belíssimas florestas de carnaúbas, com as próximas ao Rio Piranhas-Assu.

Bom, agora que sabemos que a carnaúba não é uma planta qualquer, e merece toda a distinção que lhe foi despendida, que tal chama-la por um nome mais pomposo?

Assim, quando virem uma carnaúba, em um canteiro ou praça de Natal, estufem o peito e digam: lá está uma Copernicia prunifera.

Não, carnaúbas não ramificam. Mas, tudo acontece em Mossoró/RN.

Não, carnaúbas não ramificam. Mas, tudo acontece em Mossoró/RN.

(1) Raven P.H, Evert, R.F, Eichhorn, S.E. Biologia Vegetal. 6 ed. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan. 2001.(2) http://www2.ufersa.edu.br/portal/view/uploads/setores/125/hmoss/simb.htm

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