Publicado por: Lucila Brito | 11/04/2010

As árvores são noz, legume…

O blog é sobre árvores em Natal e a primeira coisa que quero apresentar são as próprias. Um pouco diferente daquela representação bucólica do terceiro ano do Ensino Fundamental: uma enorme copa verde, sustentada por um tronco com uma formação elipsóide na porção mediana e repleta de frutinhas vermelhas.

Sim, porque, por minha curta experiência como professora, é isso o que deve ficar, mesmo, para o cidadão comum de Natal. Pela minha experiência, as escolas em Natal passam ao largo do conteúdo de Botânica no Ensino Médio. Em parte, pela aversão dos professores pelo tema. Pouquíssimos biólogos, bacharéis ou licenciados, saem dos corredores da Federal do RN com algum apreço por fotossíntese, o que dirá por crescimento secundário, câmbio vascular, câmbio da casca e correlatos. Em parte, em função daquele questionamento filosófico profundo que passa na mente de todo estudante: em que isso me será útil na vida? Não compactuo da visão meramente utilitária da educação, mas, vejamos se será possível achar uma utilidade para o entendimento do que é uma árvore.

Ao contrário da maioria dos vegetais, as árvores continuam a crescer em espessura quando o crescimento em altura cessa. Bem parecidas conosco, não? Mas, esse crescimento é bem saudável do que pode ocorrer com humanos, porque permite que o espessamento do caule, estacionária ou continuamente, de modo que podem sustentar as copas das árvores por muitos anos.

O crescimento em espessura das árvores é chamado de crescimento secundário e é iniciado em dois tecidos de células especializadas: o câmbio vascular e o câmbio da casca. Grosseiramente, podemos dizer que esses tecidos iniciais formam duas estruturas bem conhecidas: a lenha e a casca da árvore. Por isso, plantas que apresentam crescimento secundário são chamadas de lenhosas e, nesse grupo, enquadram-se as árvores e os arbustos.

Podemos dizer, então, que o câmbio vascular e da casca são as células-tronco dos caules das lenhosas, porque mantém a capacidade de formar as camadas de seus caules característicos. É a atividade desses tecidos que diferencia, visualmente, ervas, arbustos e árvores, porque permite que o caule seja muito mais espesso nessas últimas duas categorias.

Plantas herbáceas, como o mato que cresce em vários terrenos abandonados da grande Natal, apresentam pouco ou nenhum crescimento secundário e, geralmente, têm um ciclo de vida curto. Mas, mesmo assim, algumas ervas podem crescer continuamente pelo desenvolvimento de caules subterrâneos, como na bananeira (isso mesmo, não é uma árvore) ou na tiririca, a erva – daninha não o palhaço.

Herbáceas indesejáveis em canteiro central no bairro de Candelária.

Plantas arbustivas, como a mamona, parceira de brincadeiras entre muitas crianças, apresentam o crescimento secundário, assim como nas árvores, o que forma um caule mais espesso. Entretanto, em lugar de ser observado um único tronco com uma ramificação superior, chamada de copa, vêem-se diversos ramos já a partir do solo. Geralmente, os arbustos não apresentam casca muito espessa.

Plantas arbóreas, como os diversos ipês-amarelos espalhados pela cidade, apresentam crescimento secundário, com a formação de caule único- o tronco, e casca espessa. Plantas com essas características surgiram há, pelo menos, trezentos milhões de anos, mas eram mais semelhantes a samambaias do que às árvores que estamos familiarizados hoje. Hoje, pobrezinhas, essas samambaias são carvão. As árvores mais parecidas com as que conhecemos hoje começaram a surgir há cerca de duzentos milhões de anos, quando os continentes começaram a se afastar e a atmosfera e os oceanos se recuperavam de mais uma das muitas crises que este planeta neurótico passa, de tempos em tempos.

Já por essa época, começou a surgir a diversificação da flora em função da localização geográfica, conforme vemos hoje. Por exemplo, nossa Mata Atlântica, mesmo sem ter a diversidade de espécies arbóreas da Amazônia, tem uma maior diversidade que uma Floresta de Coníferas americana, inspiração para árvores de Natal – o feriado. Essa variação de diversidade de floresta para floresta é reflexo da influência climática, que comento na Primeira Folha.

Repare o tronco único que sustenta a ramificação superior de mais de seis metros, em uma praça do bairro de Mirassol.

Mas, por que será que aqui, próximo ao equador, é mais diverso? Tudo é mais ameno nas proximidades do equador. Mesmo com nossos períodos de estiagem, água e temperatura não são fatores extremamente limitantes por aqui. Não há neve, nem frio ou calor intenso. Qualquer quentura maior, basta perder algumas folhas, para diminuir o metabolismo. Talvez, também, a maior diversidade por esses lados seja devido a mais algumas crises do planeta – gelo, eventos geológicas, mil coisas… que estimularam a ação dos fatores evolutivos por aqui. Assim, com a licença de Darwin, podemos tirar o entendimento que mais espécies tiveram a oportunidade de se diferenciar e se adaptar a este lugar ao sol, enquando encaravam essas tormentas.

Então, leitor, em resumo, eis a árvore: vegetal, de grande ou médio porte, com caule lenhoso e ramificado na porção superior, que apresenta sementes cobertas por fruto (angiosperma) ou não (gimnosperma). Aí encontramos diversas dicotiledôneas, algumas magnólias e muitos pinheiros. Por essa definição, lembre-se, bananeiras não são árvores. Nem palmeiras, porque não têm crescimento secundário e, sim, um tipo específico de crescimento primário.

Mas, como eu poderia deixar a carnaúba, “árvore” símbolo do estado, de fora dessa conversa? Desculpa Academia, mas, semana que vem, com as devidas explicações, apresento a carnaúba.

Carnaúbas na calçada do Centro de Turismo da cidade.

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